sexta-feira, 2 de novembro de 2007

XIV - Fim da aventura (?)

Estou cansadíssima. São cinco horas. Estou fodida (não tem piada a conexão). Com F grande. Estou confusa. Quero tanto continuar aqui, agarrada a ele e a conversar sobre as nossas vidas que até acabam por ser parecidas. A pressão das pessoas sobre nós. Parecemos melhores amigos. Depois de ele tomar banho, vamos arranjar-nos para a casa de banho, juntos. Que giro! Nunca me imaginei a fazer isto com um rapaz. Ele pinta-me os olhos e fica óptimo, nem estou a acreditar. Quando é a minha vez, desconcentro-me e espeto-lhe com o lápis no olho, sem querer. Que desastre! Fico horrorizada.
- I am so sorry! – Guincho. Ele ri-se enquanto pestaneja.
- Oh… There is no problem.
- I’m a clumsy girl! – Desculpo-me. Limpo e recomeço. Esforço-me imenso para me concentrar no que estou a fazer e não nele. É diferente de maquilhar as minhas amigas. Se nelas ficar mal, azar. Mas ele tem de ficar perfeito. A minha mão treme só de se apoiar naquela carinha mas lá consigo fazer os dois riscos direitos e depois começar a pintar o que falta. Acho que ficou bem. Pelo sorriso dele também deve ter gostado.
- It’s good. Thanks. – Agradece e dá-me um beijinho. Que estranho. Acabámos de mandar a queca da minha vida, e digo isto sem hesitações, e agora parecemos duas melhores amigas a arranjar-se para uma noite de festa. Ele estica-me o cabelo melhor do que alguma vez a minha mãe conseguiu e depois pede-me para ter cuidado com o dele. Deve ter ficado a pensar que sou uma trapalhona e que lhe vou dar cabo do cabelo que deve ter um seguro num valor maior que tudo o que eu já comprei na minha vida inteira. Isso deixa-me infinitamente mais nervosa. Tento pensar em coisas sem piada e não embaraçosas tipo ananases (???). O cabelo dele está seco e um bocado partido de tanta pintura, laca e gel mas mesmo assim macio. Não resisto e começo a fazer uma trança. Partimo-nos os dois a rir.
- What are you doing? – Pergunta, divertido. Sinto-me uma idiota.
- Nothing, it just came up to my mind. You look like Lara Croft. – Comento e temos outro ataque de riso. Desmancho a trança e começo a esticá-lo, aguentando até aos limites máximos da dor as queimaduras que o secador me vai fazendo, sem me queixar.
- You are so cool. – Diz ele, sem motivo aparente e dá-me um abraço. Será que nenhuma rapariga lhe esticou o cabelo antes? Será que isto tem um significado muito profundo? Será que eu afinal não percebo assim tanto de homens?
Ele empresta-me uma camisola e umas calças que me ficam tão justas que parece que me vou partir ao meio se me sento, mas como é natural nem penso em confessá-lo.
- You are beautiful. – Contraria ele, quando me vê olhar para o espelho com uma expressão desiludida. Devo mesmo estar, filho.
- Oh, sure! – Gozo. – Look, I didn’t tell you this but I guess it’s kind of important. I have to get a plain at 8. And I have no idea where my friend is or my stuff. – Atiro, como se fosso uma coisa trivial. Os olhos dele esbugalham.
- Rrrreally? – Exclama. – Mein götten, you have to go?
- Kind of… - Balbucio. Observo uma expressão triste a instalar-se nele. Porquê?
- Well… I would like you to stay. But if you… have to go… You need help?
- I don’t have to. But if I miss the flight, I don’t know when I can get another one… And I have no money and no hotel booked… You know.
- You can stay with us, if you want. – Oooooh, estou a perder o controlo em mim mesma. É impressão minha ou ele está a insistir para eu ficar? Terra chama Joana à torre de controlo. Não me desapontes, cérebro! – I would like to see you again.
- You don’t even know me…
- But I would like to know you better.
- You probably think that I am just another fan of yours… - Encolho os ombros. Estou a ser totalmente sincera. – And I am not the hottest one, not the smartest one, not the best one.
- I had never had sex with a fan before.
- Yes, but…
- So, it didn’t mean anything to you?
- Of course it did! This was my second time. – Oh, não, o que é que eu acabei de dizer?? Levo as mãos à boca desejando que o tempo voltasse para trás apenas 5 segundos e coro intensamente. Ai!
- Really? – Será que isto foi escandalizado ou incrédulo? Não sei. Mas queria saber. Acho que não tenho resposta para isto. Limito-me a virar a cara, a escaldar com a humilhação.
- You don’t have to feel bad… - Começa ele.
- I’m not feeling bad, I’m just embarrassed. I mean, this is too stupid, too ridiculous. I come here telling you what to do and like I was a big girl with lots of experience but I’m practically a virgin. That’s why I’m ashamed.
- Don’t be ashamed. – Faz-me uma festa na cara. – I think you are special. You are not just a fan. And I remember what you said last night. – O que é que será que eu disse? É melhor fingir que sei.
- So, we can be friends?
Não percebo a expressão dele. Cara de snoopy. Um sorriso que está lá mas não está.
- Yes. – Diz, por fim. Dou-lhe um abraço forte.
- Thank you for everything.
- If you have a boyfriend, he will be very lucky.
- I do have one. In Portugal, you know. I think I cheated on him.
- Do you love him?
- If I did, I wouldn’t have done this. You may think I’m a bitch, but I’m not.
- I don’t think you are a bitch. It happens.
- Every girl is waiting for a true love. Like in fairy tails, even if they say they don’t. Then we just pretend to ourselves that we’ve found it so it won’t be hard to go after it.
- I think I am waiting for me true love too.
Agarro-lhe num dedo e começo a abaná-lo distraidamente.
- If your true love crossed your life, like by coincidence, you think you would recognize it?
- I don’t know…
- So, we’d better live every second if we don’t want every possible true love to escape from us.
- I like the way you talk.
- I like the way you listen to. – Seguro a cara dele entre as mãos e colo os nossos lábios. Já não tenho vergonha nenhuma.
- This is insane. – Comento.
- But it’s good.
- I just came from nowhere with this silly dream of meeting you. It’s childish, I know, but I can’t stop thinking how lucky I am.
Ele sorri novamente. Quero ligar à minha melhor amiga a contra-lhe tudo. Até ao meu irmão. Isto é de loucos! Peço-lhe o telemóvel emprestado para pôr o meu cartão e ligar à Ana.
- Estou?
- Joana??
- Não, é a minha trisavó que morreu há cento e trinta anos. Onde é que estás?
- No céu.
- A falar a sério...
- Ihihih. A falar a sério, estou no hotel. A sentir-me a gaja mais boss do mundo.
- Ainda estás drunk?
- Achassss? Passei a noite toda a...
- Conta-me tudo. - Interrompo-a. Não quero ouvir mais asneiras dos que as que já disse e pensei hoje desde que estou acordada.
- Estávamos os dois tão bêbados que ao princípio nem conseguíamos fazer nada.
- Usaste preservativo, certo?
- Ah... Ya, encontrei um pacote desses por aqui. Devemos ter usado. E tu? Conta-me tudo! São cinco da tarde, tens noção que vamos perder o avião. Já me vieram cobrar extra por estar aqui depois do meio-dia.
- Então e o Tod?
- Teve que bazar de madrugada. Acho que houve uma confusão qualquer lá na festa e eu não estava em condições de ir com ele. Mas ele deixou o número a dizer para eu ligar quando acordasse. Querida, aquilo não é um homem, é um deus! – Desato-me a rir ao ouvir isto. – Mas conta-me tu tudo!
- É um bocado mais complicado…
- Não te ponhas com coisas! Diz lá!
- Oh, o normal, que é que queres que te diga?
- O que é que tu lhe fizeste, miúda? Se bem me lembro, 'tavas com a pica toda.
- Não vais querer saber… Estou a gozar! Olha vai arrumando as malas que eu vou para aí. Até às oito temos tempo. Beijinhos.
- Mas…
Isto já não oiço, desligo o telemóvel e escrevo uma mensagem para o Luís. “Luís, desculpa o que te disse ontem, fui mesmo estúpida. Gosto muito de ti, adoro-te. Beijinho enorme”. Senden, Name, Luís (serviu de alguma coisa passar um ano e meio com o telemóvel em alemão).
Depois lanço os braços ao pescoço do Will e contemplo-o.
- I’m starving. Do you wanna eat something?
- Let’s go down. I’m hungry too.
Caminhamos pelo corredor, forrado em tons de branco e dourado, de mão dada. Estranho.
- So…- Começa ele. – You want to stay?
Ponho as mãos atrás das costas.
- Pick a hand.
- I want the two hands. To be sure you don’t go now.
Ooooh! Disseste mesmo isso? Encosto-a à parede e murmuro-lhe ao ouvido:
- I think I can figure it out.
Não tenho exames esta semana. E ainda não mexi na conta dos livros. Hum-hum. Pego no telemóvel e ligo à Ana.
- Ana?
- Diz.
- Larga as malas e apanha um táxi para o Ritz.
- O quê? E o avião?
- Que se foda o avião.
Que se foda mesmo.
Já são quase duas da tarde. Tenho um avião para apanhar às oito e a bagagem, por esta hora, já deveria ter sido removida do albergue em que eu e a Ana estávamos. Foda-se. Estava tudo planeado ao segundo e agora está a desmoronar-se como um castelo de cartas. Contudo, enquanto estou aqui com ele não consigo ficar nervosa com todos esses problemas. Mas tenho de tomar banho, estou a sentir-me um aterro sanitário. Sorrio e solto a mão da dele.
- Can I have a shower? – Pergunto, timidamente.
- Ja. – Responde-me ele. – You can use my… - Estão a faltar-lhe as palavras. Que querido! Queres dizer champô e isso, não é?
- …your bath stuff? – Completo, derretida.
- Ja. Bath stuff. – Repete ele com aquela pronúncia sexy e com um ar de strass puppy que me deixa cheia de vontade de o cobrir de beijinhos. Depois de alguns segundos a contemplar aquelas feições tão delicadas que até faz pena serem de um homem, agradeço:
- Danke. – E levanto-me, dirigindo-me para a casa de banho com a esperança que ele não esteja a olhar para o meu rabo baloiçante. Rezo para que não.
A casa de banho ainda tem mais coisas que a minha e a da minha mãe juntas. Só os produtos para o cabelo já deviam dar para abrir um negócio de cabeleireiro. Sei que é terrível e condenável mas tenho o hábito de vasculhar as coisas nas casas dos outros. Creio que muita gente também o fará na minha casa, mas ainda assim é uma coisa feia de se fazer. Mas não resisto. Cheiro os perfumes todos, gel de banho e desodorizante. Há um necessaire preto em cima do balcão com escovas e alguma maquilhagem. E a um canto, umas meias e boxers enrolados numa bolinha e atirados para o chão. Qualquer coisa de homem no meio desta casa de banho de boneca. Mas tem imensa piada. Se fosse um gajo normal ia ter de ficar a cheirar a homem por causa das porcarias do gel de banho e desodorizantes. Assim, não. Entro para o duche rapidamente, sempre com aquela sensação de estar a ser observada. Se calhar é alguma doença nova que ainda não descobriram. As minhas pernas tremem só de pensar que estou nua e separada apenas por uma porta dele. Quer dizer, ele já me viu nua, como é óbvio, mas estando consciente é diferente. A água está a escaldar. Tento não demorar muito tempo e quando saio, visto as cuecas, enrolo-me numa toalha e agito o cabelo para não ficar colado à cabeça, tipo mulher-ratazana. Após alguns minutos a acalmar-me, saio. Ele estava a fazer zapping na televisão e fica a olhar para mim. Sinto-me queimar. Levanta-se, vem ter comigo e faz-me uma festa no braço.
- Uh… - Começa, procurando as palavras. Que eu não faço ideia quais são e me deixa aterrorizada. – Yesterday… We didn’t do… You know… We didn’t do it. You were drunk and I am not a bad guy. – Foi isto que ele disse. Com muitos “rr” pelo meio, mas foi. Fico de queixo caído. O quê? Não penso. Acho que este foi o acto reflexo mais estranho de toda a minha vida.
- Thank you. – Murmuro. Estaco a fixá-lo, como uma criança que olha para um brinquedo novo sem saber muito bem o que fazer com ele. Sinto-me desajeitada sem saber como é que lhe hei-de tocar e limito-me a agarrar no cabelo dele como se fizesse um rabo-de-cavalo. Depois abraço-o com tanta força que sinto os ossinhos nas suas costas e beijo-o, a cagar completamente para as figuras que estou a fazer e sem medo da reacção dele, a toalha cai, mesmo como nos filmes. Acho que perco breves segundos a pensar que raio estou a fazer. Efémeros segundos. Caímos na cama e perco completamente a noção dos sítios onde estou a ser tocada, eu nunca senti isto antes, não desta maneira, não sei porquê. Fico com medo de lhe estragar a camisa de marca ao tentar desabotoar os mil botões mas ele trata de a rasgar e eu atiro-a para um canto. Empurro-o contra a mesa-de-cabeceira e aquela merda cai toda, rimo-nos e pelo ritmo que isto leva, parece-me bem que não vou chegar a tempo de apanhar o avião. Olha que grande problema! Estou a ser irónica.
(Pi, pi, pi…)
Acabou-se a bateria. E não tenho carregador. Melhor, não tenho nada. Só a roupa da noite passada que me parece muito pouco própria para usar na rua. E o vestido está rasgado. Parece que isto foi violento…
E ele não acorda. Fico para aí uns cinco minutos a vê-lo respirar, a sentir-me tão estúpida como o estava realmente a ser. Eu não faço isto. Devia pegar nas minhas coisinhas e ir embora, deixar o meu número de telefone ou assim… Ou talvez não, estas coisas de one-night-stand não são para deixar números de telefone. É uma queca e mais nada, como uma conversa com a velhota no autocarro que se esquece no minuto a seguir. São como regras feitas.
Ou então podia ir lavar os dentes, pôr-me apresentável e deitar-me outra vez, a fingir que estou a dormir, à espera que ele acorde. O que menos me incomoda neste momento é saber que estou num quarto de hotel, no meio de algures, sem telemóvel nem dinheiro nem nada, perdida. Porque me encontrei deitada ao lado do gajo por quem ando maluca há um ano e meio e que não é propriamente a brasa do vizinho do 2º direito.
Parece que caí em mim, e foi um grande queda. Só agora é que sinto as pernas fracas, as entranhas a girar ao ritmo de uma máquina de lavar e o coração a saltar tanto que não sei como não o vejo no peito, como se fosse um cartoon. Uma estranha vergonha apodera-se de mim. Foda-se, estou quase nua e tenho aquela terrível sensação de estar a ser observada por alguém que conheço… como a minha mãe. Havia de ter a sua piada…
Porém, enquanto me espalho por estes pensamentos peregrinos, não consigo tirar os olhos dele.
Agora está a mexer-se. Ohmeudeusohmeudeusohmeudeus ele não me pode ver assim! Pareço a noiva cadáver! Mas não acorda. Apenas mudou de posição. Ainda com aquela alegria de senhora deliciada com um bebé e com um grande sorriso pateta (uma vez que estou a sorrir para mim mesma), torno a sentar-me na cama. Sinto a respiração dele condensar na minha mão. Que estranho, é tão real. Miúda, não estás a sonhar. Isto está mesmo aqui. Sem querer, faço-lhe uma festa e ele abre um olho. Ups!
- Desculpa! – Balbucio logo, afastando-me. “Desculpa” em português, para estar claro como sou inteligente e como ele vai perceber perfeitamente. Não percebe. Olha-me como um bicho atordoado e diz também qualquer coisa que para mim é chinês. Estamos com uma falha de comunicação.
- Sorry. – Repito. É o momento da coroação da Rainha das Idiotas. – I was just… Well… uh… Nothing. I’m leaving ok? Sorry anyway.
Ele continua confuso. Revira os olhos, como se estivesse a pensar e responde, num inglês forçado, interrompido e cheio de “rr” e sons esquisitos:
- No. Don’t leave. You can… stay.
- Look, we don’t have to talk about this, it’s ok. I just need to make a call…
- But you want to go away?
- Well… No, but… - Merda, e agora digo o quê? Não me sai nada. Deve estar a gozar com a minha cara! Só consigo olhar para ele e ficar de boca aberta como um peixinho de aquário. Mas com um pouco mais de QI, já que eles passam a vida às voltas, que vida estúpida, mas ai o que é que estou para aqui a pensar? Concentra-te. Respira. Ele ainda está especado.
- So, stay. It’s morning. We can stay here. – “Herrre”, é mais assim que ele diz. Ficarmos aqui? Com pequeno-almoço na cama, tipo casal de namorados? Uau! Uau, mas assustador. Devo estar com uma cara linda de parvalhona. Ah, e volto a salientar: estou de roupa interior. Ele não parece estar incomodado com isso. Então, força, ficamos aqui. Tremo que nem uma gelatina ao enfiar-me outra vez dentro da cama. Parece que me vou desmoronar a qualquer momento. Inclino a cabeça estrategicamente para que o cabelo me cubra a cara e olho para o outro lado, contornando cada objecto que vejo. É suposto sorrir? Falar? Dizer o quê? “Então, gostaste?”, “Olá, sou a Joana, muito prazer.”, há alguma frase que faça sentido nestas alturas? Só me apetece dizer palavrões.
- So, what are you thinking about? – Pergunta-me. Em que estou a pensar? Que raio de pergunta!
- Uh… Nothing particulary. – Esta era mesmo para levar um “lol” a seguir. Oh, God. Estou a tremer. E não é de frio.
- You are cold? – Que vozinha amorosa! Respondo com um gemido. Sinistro! Agora vai-me achar somente capaz de coaxar. E é aí que o coração me cai aos pés. Aos pés não, porque estou sentada. Ao estômago, talvez. Ele põe o braço à minha volta e encosta-me a ele. Calma! Isto não é suposto. Oh meu Deus… até o meu cérebro está líquido! Será que se meteu demasiado na coca ontem à noite? Não, essa fui eu. E estou consciente. Semi. Um terço consciente. Acho que vou rebentar. Aninho-me no ombro dele. Assim de repente não é do tipo de pessoa que mais apeteça acarinhar, tem os cotovelos bicudos e o cabelo dele faz cócegas na minha cara. Mas ainda assim, não me controlo e dou-lhe um beijinho na cara.
- Oh, I’m sorry! – Digo, instintivamente. Ele ri-se.
- Don’t say you are sorry everytime. – Frase mal construída, mas está óptimo. Está mesmo óptimo. E a seguir, salta-me à boca. Pronto, é suposto eu aguentar isto? Sem calmantes? Sem drogas? Ordeno o meu cérebro para parar de tentar pensar, porque não está a resultar. E fecho os olhos. Achava que as pessoas quando acordavam tinham mau hálito e sabiam mal. Não sabe mal. De todo. E sinto um piercing lá pelo meio. Que giro. Quando nos soltamos do abraço, sinto-me a escaldar e com cara de tomate. Ele parece achar muita graça porque me aperta uma bochecha. O que é que foi isto? Será que foi “que coisinha amorosa”? Ou “que bochecha tão gorda, deixa-me lá ver se cabe toda na minha mão”? Cérebro, já te disse para não tentares. A sério. Já foi suficientemente bom ter-me lembrado ontem de me depilar e usar uma roupa interior gira, não que estivesse à espera de uma cena destas, claro que não, mas pelo menos não tenho de passar pelo embaraço de saber que ele viu uma das minhas lingeries mais pirosas ou a linha do biquíni crescida como mato. Bem… onde é que nós íamos? É melhor dizer qualquer coisa para não parecer indiscutivelmente estúpida. Não, não. Só me ocorrem piadas parvas e frases sem sentido.
- Do you need to go somewhere? – Pára com as perguntas! Não percebes que não consigo dizer nada de jeito?
- Yes…No I mean, not right now. I came with a friend, she may be worried, you know… - Não propriamente worried, mas desejosa de saber todos os pormenores escaldantes dos quais nem eu me lembrava. Eu sabia que ela tinha ido com o outro, mas isso foi no princípio da noite. E estas coisas são bem melhores quando se está lúcido. Mas estou com uma preguiça enorme. Boa desculpa para continuar aqui. Sorrio. E desta vez, sem medo de ficar feia, sem medo que o nariz se espalhe pela cara. Porque ele continua a olhar para mim como se eu fosse capaz de fazer a Michelle Pfeiffer parecer a Maga Patalógica e, por uma única vez na vida, sinto mesmo que sou. Olho-o nos olhos, já sem vergonha e tudo vem naturalmente. Estamos mesmo a conversar. Como se fossemos velhos amigos e não companheiros de uma noite de sexo, e não o popstar e a fã que acabou por ser uma num milhão. A dizer tudo o que provavelmente já dissemos a noite passada e não nos lembramos. E a dizer muito mais. A conversar.

After Party (no seu sentido real)

Dói-me imenso a cabeça. Na verdade, dói-me um bocadinho de tudo mas acho que quando uma dor é mais forte acaba por inibir as outras, como se desviasse a nossa atenção ou algo do género, penso que aprendi isso algures numa aula de Psicologia. Ou então não. Não sei, não consigo pensar devidamente. Deve ser da ressaca. Meu Deus! Volto a afundar a cara na almofada que não tem o meu cheiro mas uma mistura de lavado com tabaco e perfume. O aroma típico da manhã tardia depois da festa.
Que horas serão? Não há nenhum relógio nem telemóvel por perto. Contorno a divisão com o olhar: um quarto amplo, simplesmente decorado, com muito espaço entre as coisas, como os quartos de pessoas nunca são. Como os quartos habitados nunca são. Aquelas cortinas neutras, típicas, compridas, deixam espreitar um horrível dia cinzento. Mas sou inevitavelmente atraída por um grande espelho rectangular. As minhas pernas ganham força e rastejo para fora da cama, sentindo um arrepio imediato. Estou de roupa interior. Boa. Caminho como um fantoche partido e quase que entro em espasmos epilépticos quando uma criatura grotesca me fixa no espelho. Não, afinal sou eu. Infelizmente sou eu. A palidez confere ao meu bronze um tom amarelado, os olhos borrados de preto e o cabelo… bem, o cabelo… a descrição mais fiel que posso fazer é que pareço um curioso cão das montanhas. E pensar que já me disseram que o meu cabelo está óptimo quando acordo. Se isto é o “óptimo”, não faço questão de ver o “péssimo”. Sentindo-me cada vez mais pegajosa e gasta, assim como uma lata de coca-cola bebida e amolgada, descubro a minha mala violentamente atirada contra uma poltrona, de maneira a que o seu conteúdo se encontra espalhado pelos arredores. O que me relembra que, para estar a ver tão bem, devo ter dormido com as lentes de contacto outra vez.
Pelo menos, os cigarros estão intactos. Devia estar a pensar em melhorar este meu aspecto, contudo prefiro piorá-lo um pouco mais. Levo um cigarro para a varanda mas o frio recorda-me a minha indumentária e fico-me pela janela. Encho os pulmões de fumo como se a minha sobrevivência dependesse disso e fico ali, estática, com o dito cujo espetado entre os dedos e aquela expressão de desenho animado japonês quando está pensativo, que se resume a não ter expressão nenhuma. Vejo uma rua muito movimentada e muito pardacenta, caraças, aqui nada tem cor? Eu pelo menos, estou amarela.
Adicionado agora o fedor a tabaco ao meu estilo ressacada-acabada-de-acordar, vou encharcar-me em perfume e chupar uma mebocaína para não ficar com este cheiro nojento. Depois, sento-me à beira da cama e observo-o. O rapaz que estava ao meu lado. Dorme profundamente, o seu peito sobe e desce devagar. Quem és tu? Bem, é claro que sei quem és, não estava assim tão bêbeda, mas olhando assim para ti, tão quietinho e remeloso, como todos os comuns mortais são quando dormem, parece que somos amigos ou velhos conhecidos. Ainda bem que não somos. Sinto um súbito acesso de carinho por ele e afasto os cabelos pretos e compridos da sua cara. Ainda está mais pálido que eu, o que me faz sentir melhor. Só dou por mim a sorrir involuntariamente quando me doem os lábios de tão secos que estão. Acho que ainda não tenho noção do que me está a acontecer, aliás, do que aconteceu aqui.
Porque é que ele consegue dormir e eu não? Apetece-me acordá-lo. Apetece-me conversar com alguém para ter a certeza que não entrei para a dimensão dos mortos-vivos, tipo filme de terror. Faço o quê? Mexo-lhe no cabelo? Dou-lhe um beijinho? E se ele se chateia? Um murmúrio começa a soar pelo quarto. É uma vibração, é o meu telemóvel. Deambulo até à mala e atendo, carregando nas teclas todas ao mesmo tempo.
- Estou?
- Bom dia, não?
- Quem é?
- Sou eu! Onde raio é que te meteste??
- Estou num hotel.
- NUM HOTEL???