quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Já estou farta de música alemã. Quanto é que terei de pagar para tocarem qualquer coisa com uma porcaria de uma letra? Finalmente, começa a dar um remix de uma música que já podia ir para o "há séculos que não ouvia isto", Ayo Technology do Justin e 50 Cent. Vamos dançar. Todos menos o Will, que insiste que não sabe dançar. A Ana puxa-o e insiste mas ele recusa e acho melhor não o aborrecer. Nós vamos. O George começa a dançar agarrado a mim e aperta-me contra ele com tanta força que sinto as maminhas esmagadas contra o peito dele. A Ana está a fazer aquelas danças sexys que só ela sabe fazer e eu começo a ver tudo a girar, começa a doer-me a cabeça. Tenho o nariz mesmo colado no pescoço do outro e começo a sentir o meu peso deslocar-se todo para cima dele. Faço um esforço para me abanar, ele dança bem mas preferia mil vezes dançar com o Will ainda que ele dance pessimamente. Não aguento, tenho de me sentar.
O Will continua na mesa, a mexer no telemóvel. Espero que não esteja a falar com nenhuma gaja e só de pôr essa hipótese, o meu estômago dá um nó sobre si mesmo. Sento-me ao lado dele e começo a mexer distraidamente no seu cabelo comprido, enrolando-o nos meus dedos.
A Ana está ao colo do Tod a cantarolar qualquer coisa, não parece muito bem, e ele alterna beijinhos e dentadinhas amorosas no pescoço dela com goles de cerveja. A minha cabeça lateja. Estou maldisposta.
- You are okay? - Pergunta o George. O Will volta-se para mim e apoia a minha cabeça no ombro dele. Não estou nada okay. Mas finjo estar.
- I'm fine. - Quase murmuro. - Just a bit tired.
A Ana e o Tod levantam-se e ela diz-me:
- Joana... eu e o Tod... bem, nós vamos indo... tu sabes... - E desata aos risinhos, desiquilibrando-se pelo que ele põe os braços em volta da sua cintura fina. No meu estado normal dar-lhe-ia 101 recomendações mas limito-me a um "have fun" enquanto ele lhe pega ao colo de maneira desastrada e desaparecem do meu campo de visão. Torno a encostar a cabeça no Will ao passo ele vai bebendo uma cerveja. Os outros dois também já não estão lá.
O Will começa aos soluços.
- What's wrong? - Pergunto.
- I think I drank too much... - Inclina-se para a frente e põe a cabeça entre as mãos.
- You want to vomit or something?
- Nein, nein... I'm okay. - Ergue-se mas fraqueja e volta a cair ao meu lado. Rio-me estupidamente.
- I drank too much too. No problem. - Sem mais rodeios, deito-me em cima dele e já é uma espécie de instinto abrir a boca porque não consigo pensar em nada. As minhas mãos já vão nem eu sei bem onde quando um amável colaborador do estabelecimento nos interrompe e diz qualquer coisa ao Will.
- What did he say?
- He said we could go upstairs where is more privacy.
- Shall we?
- What?
- If we should go?
- Ja. Let's go. - Desembaraçamo-nos com dificuldade e apoaimo-nos mutuamente até umas escadas fluorescentes. Já lá em cima, somos conduzidos a um género de cabine onde consigo destinguir uns sofás em pele negra e as paredes encarnadas. Rebolamos lá para cima sem hesitações a qualquer escala. Sei que parto uma unha enquanto estou a abrir-lhe as calças e que ele tem as mãos a puxar-me o vestido mas tenho muito pouca noção de tudo o resto que acontece. Se começarmos para aqui a fazer coisas, só espero que não esteja ninguém a ver.
Depois de algum tempo já não me estou a sentir muito bem. Isto é bom mas já me dói o maxilar. Ele parece estar a gostar muito mais do que eu porque solta uns gemidos e empurra-me contar o sofá. Tem um joelho praticamente espetado na minha barriga o que me faz sentir ainda mais nauseada. Quero vomitar. Preciso de. Afasto-o bruscamente e enrolo-me sobre mim mesma, com vómitos.
- Are you okay?
- No... I'm not. Shit, I'm not. - Mas mal aquilo acalmou voltei a atirar-me para cima dele e continuar o que estava a fazer.
- Do you want to go to the hotel? - Pergunta-me, ofegante.
- Yours or mine?
- Do you remember your hotel?
- Absolutely not.
- So, let´s go to mine.
A partir daí, tenho flashes do táxi, das pessoas a olharem para mim, de uma entrada de hotel muito ampla e clara. E depois, não me lembro de absolutamente mais nada.
- Feel free. - Digo, revirando os olhos.
- Anda comigo à casa de banho... - Pede a Ana, puxando o meu vestido molemente, com a voz já completamente alterada. Encolho os ombros e agarro na mão que ela me estende. O Tod olha para ela e arregala os olhos. Ela solta um risinho, faz-lhe adeus e puxa-me através da multidão. Pelo canto do olho, vejo um grupo de miúdas a aproximar-se deles e só me apetece voltar para trás mas ela insiste. A música vibra nas colunas e só vejo pessoas giras a dançar. Mas estou-me a sentir tão boss que não me causam qualquer efeito. Sou uma delas, neste momento. Somos. Passo pelo George e pelo outro que estão ao balcão a falar com aquelas modelos que servem bebidas. Quando nos vêm, acenam. Dirijo-me para lá e na minha incosciência ou involuntariedade, dou um beijo na boca ao George e volto para o pé da Ana. Ela nem viu, pelo que não comenta. Nem sei o que me deu, mas também não interessa.
Entramos na casa de banho e ela senta-se no lavatório.
- Joana, não tens noção!!!
- Eu tenho perfeita noção...
- Estou no céu. Acreditas nisto?
- Claro que acredito. Foi a cena mais hot que já vi ao vivo e a cores! Parabéns!
- Tu e o Will, fizeram alguma coisa?
- Ah... Não. Só conversámos.
- Sobre quê?
- Coisas da vida... foi giro.
- Joana, tu não vieste aqui para falar de coisas da vida. Podes falar de coisas da vida com qualquer pessoa!
- Ya, eu sei... Mas o que é que queres? Não posso saltar-lhe para cima.
- Claro que podes! Estás à espera que seja ele a fazê-lo?
- Pois... ele disse que eu era gira.
- Então, mostra que és gira e tens personalidade. Atira-te de cabeça!
- E se ele se passar?
- Hum... pois, nesse caso, tenso George. Ele pareceu interessado em comer-te.
- Tipo "Plano B"?
- Exacto! - Deixa-se escorregar até ao chão. - Estou tão bêbeda!
- Eu também estou um bocado... acabei de dar um beijinho na boca ao George. No meio do nada.
- A sériooo? Vês, então é só fazeres o mesmo com o Will.
- Não é a mesma coisa!
- Claro que é! Olha tenho de ir mesmo à casa de banho, não bazes sem mim. Mas assim que sairmos daqui, vais fazer o que eu disse ou não és ninguém.
Murmuro que não sou ninguém mas ela não ouve. Quando saímos e somos envolvidas pelos milhares de décibeis a que o som deve estar a rebentar, estou mesmo decidida. Já não penso. Estou maquinizada. Como as barbies do bar de strip.
Atravessamos a multidão e vejo o Will, parado junto à pista, a segurar num copo. Sozinho. Obrigada, Deus, obrigada, Senhor. A Ana empurra-me e eu saltito nos meus saltos até ele. Sem pestanejar nem fazer pausas, atiro:
- Look I don't know if you will be mad at me but I don't care because I came from Portugal mainly to do this and now that I got the courage to do it I'm really sorry if you think that I am another stupid fan of yours. I damn like you very much. - E sem dizer mais nada, agarro-o pelos ombros e prego-lhe um beijo. Ao contrário do que eu pensava, ele não me bate nem me enxota como se eu fosse um bicho asqueroso. Continua. Mas eu páro, afasto-me e fujo dali para fora, a arder de vergonha. Se calhar, estraguei tudo. Mas fiz. Fiz!!!
Sento-me na mesa onde estivemos, just by myself. Me, myself and I. Pego numa garrafa de Absolut e dou um golo enorme para ver se me ajuda a aguentar a pressão do meu mais recente acto de (in)sanidade mental. Quando olho em redor, com a visão meia turva, o Will vem para cá. Não me mexo, quase nem respiro e observo-o a sentar-se ao meu lado. Fiz merda. Agora ele vai dizer que sou uma histérica.
- This has... never happened to me. - Quase soletra. É uma frase complicada, realmente. Mas deve estar a mentir. Até parece que nunca nenhuma fã lhe saltou à boca. Que grande achado!
- Oh... really?
- Ja...
- Well... you mind if I do it again?
- I think I don't mind...
- Ok... - Que parvoíce. Abandono o meu estado de paralisia, agarro-lhe na cara. Já está. Foi só isto? Que fácil. Sinto o piercing dele lá pelo meio. Inacreditável. Fui mesmo capaz. Será que foi assim que a Ana fez? Quando paramos, sorrio abertamente. Meu Deussssssssss!
A Ana e o Tod surgem do nada. Não chegaram a ver, acho eu. Depois chegam os outros dois. O George senta-se e abre um saquinho com um pó branco que espalha sobre uma chave e passa ao Tod.
- You want some? - Pergunta a mim e à Ana. Nunca experimentei. Mas tenho vergonha de o admitir.
- Sure.
- You're not going to tell this around, right? I mean... fanclubs and so on. We don't want to be a bad example.
- Oh, come on! We're not thirteen! It's your life, right? Your business!- Respondo indignada. Depois do Tod, aceito a chave.
- I went green the last time I tried. - Confessa o Will. Os outros partem-se a rir.
- Really? What a pussy! - Comento, enquanto snifo aquela porcaria. Quase espirro mas seguro. Depois dá-me uma comichão no nariz e sinto uma estranha sensação de dormência pelo corpo todo. Fixe. A Ana também não espirra nem nada mas pela cara dela consigo ver que está a sentir o mesmo que eu. A chave dá mais uma volta e desaparece da mesma forma que apareceu, bem como o saquinho vazio.
Bolas!...
Entretanto aparecem alguns fotógrafos e também repórteres mas os seguranças da equipa deles, que permanecera todo o tempo atenta, afasta-os. Não devem estar aqui para dar entrevistas. Os flashes fazem-me arder os olhos. Devo ter ficado com uma bela cara de parva. Começa tudo a falar em alemão outra vez.
- We are not giving any interviews tonight. - Explica o Will.
- That's a shame... I was just waiting to have some pictures with you! - Exclama a Ana, do outro lado da mesa. - Can we?
- Of course. - Responde o Tod e começa a fingir que se penteia. O George simula que estraga o elaborado penteado do Will e ele afasta-o, entornando um copo inteiro por cima de mim.
- Thank yo so much! - Ironizo, rindo. Lá se vai o meu vestido de 200 euros! Que azar!
- Oh, I am so sorry! - Desculpa-se ele, com um guincho, abrindo imenso os olhos.
- No big deal. I clean it. - Minto. É claro que estou passada da cabeça e que se fosse outra pessoa qualquer já lhe tinha mandado um par de estalos. Mas tu, querido, não faz mal nenhum.
- I clean. - Diz ele e pega num lenço. Fico embaraçadissima quando ele passa o lenço pelas minhas pernas mas limito-me a morder os lábios com toda a força que tenho. A Ana parece alheia a toda esta situação e segura uma máquina digital, com ar impaciente. Tiramos umas fotografias de modo a apanhar todos aos pares ou aos trios ou whatever e tenho a certeza que fiquei um horror em todas mas controlo-me para não verificar e fazer figura de otária. Rezo para que tenham ficado bem.
O Will levanta-se e diz-lhes qualquer coisa. Óptima oportunidade para o seguir a não ser que vai a casa de banho. Será que vai? Era um bocado estúpido ir atrás dele para lá.
- Where are you going? - Pergunto.
- Just out there. You want to come? - SIM SIM SIM, MIL VEZES SIM!
- Ok.
Vamos até à varanda onde sirandam algumas modelos e fico cheia de medo que ele se ponha a olhar para elas e esqueça que eu estou ali. Claro que olha mas nada de mais.
- I am sorry about your dress.
- No problem. It's just a dress. - Just a dress que me custou os olhos da cara!
Ele sorri vagamente e depois põe-se a olhar para mim. Será que tenho alguma coisa na cara? Tipo escrito "És lindo e quero saltar-te para cima"?.
- Why did you come?
- Come where?
- Here. Now. With me. - Oh, God! Deve estar a achar que sou uma fã estúpida a fazer-se a ele. O que é que eu digo? Sem ser "posso comer a tua camisa" ou "queres ver a minha imitação do virus do tétano" que são as únicas coisas semi-coordenadas que me ocorrem.
- I'm not flirting you.
- I didn't say that...
- Yeah, I know. I just wanted to talk to you. You know, sometimes we think we know someone just because we see him everywhere and when we get to know him, it's different.
- I thought you knew everything about me.
- Why?
- All the fans do. You are not my fan?
- Well, I guess I am. But more than that, I like you. And we don't mess around in the lives of people we like. Beside, I can know thing about your career, what I read around, but I know nothing about you as a person.
- You would like to know?
- If I didn't, I wouldn't have followed you.
Ele sorri. Estamos a conversar.
- How about you, why did you come here? - Pergunto, inclindo-me um pouco para ele.
- I like to be alone sometimes. When we are famous, we don't have any time for us.
- I understand. You want me to leave?
- Of course not. I enjoy talking to you.
- Me too. So... why did tou call me in the concert?
Se calhar, foi uma pergunta idiota. Ele baixa a cara e parece que consigo ver duas manchas mais escuras na sua pele imaculada. Mas deve ser só impressão. Acho que os rapazes nunca coram.
- Because you are beautiful. - O meu coração tenta bater o recorde do salto em altura e quase me sai pela boca. As minhas mãos suam e limpo-as discretamente ao meu vestido arruinado.
- Thanks...
- You are eighteen?
- Yes.
E ficamos ali que nem uns parvos durante alguns minuto sem dizer nada. Às tantas, farto-me do silêncio, não lhe posso saltar à boca nem nada, e sugiro irmos lá para dentro outra vez porque está a ficar um gelo.
Quando chegamos, não acredito no que os meus olhos vêm! O sofá está completamente ocupada pela Ana e pelo Tod que progrediram para a cena de marmelada mais hardcore que tenho visto ultimamente. Acho que só consigo destinguir onde começa ele e acaba ela por causa da saia preta dela que está tão puxada que por escassos centímetros não passa os limites da decência. O top encarnado confunde-se com o tecido do sofá. Mas ninguém parece prestar muita atenção à cena, isto deve ser normal por aqui. As pessoas passam, algumas olham, outras nem por isso. Nem sinal dos outros dois. Abrem tanto as bocas que quase me sinto a participar e ele tem a mão inesteticamente pousada (pousada é um eufemismo) no rabo dela. Como é que ela conseguiu??? Sinto uma pontinha de inveja por não ter chegado a lado nenhum com o Will, se bem que gostei imenso de falar com ele.
- Get a room. - Comento com o Will e ele sorri. Eles aperceberm-se da nossa presença e fazem o obséquio de se largarem e sentar-se, nada compostos. A Ana deita-me um olhar de felicidade ébria e eu bato palmas silenciosamente para ela e atiro-lhe um beijo, sem que eles vejam.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

XII - Royal Burg. Alles wird gesagt!!

Está uma fila gigantesca, as luzes projectam-se para fora e parece fantástico. A clientela não tem nada a ver com a noite passada no Prenzlauer. Os homens cheiram a perfumes caros e têm todos um aspecto sólido e musculado, segurando com um braço forte as raparigas altas, esguias e mais brilhantes que o meu vestido que se equilibram nos seus saltos. Há ainda grupos de rapazes e raparigas muito novos, todos giríssimos e vestidos de branco, cheira-me que são empregados daquelas agências de modelos adolescentes que as organizadoras de festas contratam para servir bebidas. Finalmente, as verdadeiros modelos: corpos magros que exibem amplas zonas de coxa e decote entre os vestidos esvoaçantes, batem as pestanas e riem com uma falsa alegria cravejada de diamantes. É praticamente impossível entrar e sentimos o entusiasmo morrer.
NÃO! Eu não vim aqui para nada! Este é o momento decisivo e se já me fiz passar por segurança no concerto não é agora que me vou envergonhar de passar em frente a toda esta gente fabulosa e entrar por ali a dentro como se fosse a rainha do funaná! Tenho dito! Avanço decidida, acendendo um cigarro. Normalmente seria a Ana a tomar iniciativa mas o meu sangue ferve tanto que perco todo o medo (e toda a noção da realidade).
- Good night. - Cumprimento o porteiro com uma voz grave e sensual, enquanto lhe lanço o mais brilhante dos sorrisos. Espero que ele não vire a cara como se eu fosse um cão raivoso feio e pronto a morder.
- Good night. - Responde ele, sem pronúncia nenhuma. Sinto-me intimidada. - Names, please?
- Pamela and Delilah. - Minto, com fluência. - They said there was kind of a problem with our names on the list. We came with the model's agency...
- Shiznik models?
- Yes, right. - Não sei de que raio estará ele a falar mas mantenho a calma.
- Well... I'm sorry, but you're not on the list. - O sorriso dele torna-se uma expressão severa e dura, como se descobrisse a nossa tramóia e nos quisesse tirar dali.
- Excuse me? - Interfere a Ana. - We are not on the list?
- That's right, ladies, I'm sorry. You have to call the party supervisor or who else gave your names.
- That's not possible! - Escandalizo-me, teatralmente.
- It must be a mistake! - Prossegue a Ana.
- No mistake. Now, please, call someone and let those people come please, step aside.
- You're not getting it, for sure. We didn't came here to wait as we were any girls! Let us in, please, and I am sure there will be no problem with the agency.
- You're the one who doesn't get. I can't. I have orders. So, handle on that and free the way.
- Pamela and Delilah, check again. - Pede a Ana. Oh-oh. Não está a resultar.
- You could be England Queen herself. I don't care. - Ai, ai, ai. Foda-se, e agora?
A conversa envolvente sobe de tom quando chega uma limosine preta. Inclino-me para trás, semicerrando os olhos. MY GOD. A porta abre-se e eles saem. Sorrindo, como sempre, descontraídos, cumprimentando as pessoas e... encaminhando-se para cá! O porteiro ignora-nos completamente e abre-lhes o mais caloroso sorriso, recebendo-os em alemão e com a máxima cortesia. Fico de queixo caído e a Ana aperta-me o braço. Eles passam a cerca de um metro de nós.
O baixista, George, olha para nós. É giro. Tem o cabelo liso e castanho e afasta-o dos olhos com um gesto pouco másculo.
- Hi! - Diz, reconhecendo-me. Toca no braço do Will, puxa-o para ele também me ver. Caralho. - You came to the stage.
- Yeah, I did. - Respondo, acanhada. O Will olha para mim e sorri.
- Hi. - Cumprimenta e estende-me a mão. Dou-lhe um aperto de mão desajeitado. - You are my great singer. What's your name?
- Joana. - Foi uma sorte lembrar-me.
- And I am Ana. - Apressa-se a Ana, apertando-lhe a mão também. Estamos nervosíssimas. O outro, Tod, o guitarrista aproxima-se para ver onde é a festa. É de longe a única pessoa que se atreve a aparecer aqui de baggy trousers gigantescas, ténis de skater e uma t-shirt onde cabia uma equipa inteira de futebol americano. A Ana parece que vai desmaiar mesmo ao meu lado. Sei que está a controlar-se para não desatar aos berros.
- Hello, girls! - Sauda o Tod, com ar de engatatão. A sua pronúncia é ligeiramente melhor que a do Will. E tem a voz mais grossa. Nem parecem gémeos. - I didn't know this place had such beautiful ladies. - Que típico. Mas tem um grande charme. Ela não perde tempo em apresentar-se e dar-lhe um beijinho na cara, à bela moda latina. Eu fico-me por manter um ar descontraído e sexy, sem exagerar. O segurança diz-lhes qualquer coisa em alemão, e eles começam a entrar, fazendo-nos sinal para seguir. Não somos de modo algum impedidas e cambaleamos, aturdidas pelo diálogo que se acabou de desenrolar.
O Royal Burg é giríssimo. Tem aquelas luzes azuis espectaculares, a música chillout a embalar os poucos corpos que se movimentam na pista, o fumo lançado sobre os dois palcos e a tal equipa de jovens modelos a fazer o serviço de catering.
É-lhes indicada uma mesa a um canto onde já estão preparadas várias garrafas e quatro copos. A Ana insiste para nos sentarmos com eles mas eu retruco que fica mesmo mal metermo-nos ali no meio sem sermos convidadas e que o melhor é irmos ao balcão, pedir qualquer coisa e depois caminharmos com um ar de mulheres-fatais na direcção deles, à espera de um sinal para nos sentarmos. Equilibrando-nos nos nossos vertiginosos saltos, dirigimo-nos para o bar, fechando os punhos, roendo o nervoso miudinho.
- Meu Deus! Ele é tão giro! Viste? - Quase grita ela, com as duas mãos a cobrir as bochechas coradíssimas.
- Se vi!
- Eles foram com a nossa cara! Acharam-nos muita loucas, de certeza! Olha discretamente para ver se eles estão a olhar para nós.
Quando me vou a virar, quase que esbarro com o George. Ele ampara-me a queda imaginaria, colocando a mão na minha cintura.
- Can I get you a drink? - Pergunta, sempre a sorrir.
- If you can? Sure. - Não me ocorre nada mais inteligente a dizer.
- Why don't you come to our table? - Finalmente! A Ana exibe um sorriso triufante.
- Thanks. - Agradecemos, quase em uníssono. Ponho a palma da mão aberta atrás das costas tipo "give me five" e ela bate com a dela.
- Somos as melhores! - Murmura, ao meu ouvido. Se somos! Não estou a acreditar! Porém, depois de tudo o que já aconteceu, acho que começo a encarar isto com uma certa naturalidade. Estou sóbria, disso tenho a certeza.
- Hi again. - Diz o Tod que está sentado de pernas abertas como se fosse algum sultão à espera do seu harém. Tenho a certeza que a Ana não em hesitaria em ser parte dele. Até o baterista, o que achamos menos piada de todos, que parece sempre muito enfastiado, nos sorri e diz "hello". Fixe! A Ana naturalmente desliza sem pudores nem meios termos e senta-se mesmo ao lado do Tod. E eu sou mais ou menos guiada pelo George para me sentar com ele mas caramba, amor, não e bem a ti que eu quero. Se bem que não és nada que se deite fora, não mesmo... Joana, mantém a tua faceta ninfomaníaca no seu canto oculto. Isto é informação a mais para o meu cérebro, é a verdade.
Fazemos conversa. Dizemos que somos portuguesas, falamos todos sobre o concerto e sobre coisas triviais da carreira deles e da nossa vida em Portugal. Que estranho! Está mesmo a acontecer. E já nem estou muito nervosa. Isto é giro. Fumamos todos menos o baterista que diz que é um rapaz saudável. Digo que também adoro desporto e que o meu mal é mesmo o tabaco e depois começamos a atrofiar com coisas sobre desporto e isso tudo.
Quero mesmo meter conversa com o Will. Mas só com ele.
- I love your hair, you know. How can you do that? - Nem acredito que perguntei isto. Mas é na boa. Ele ri-se.
- It's difficult. Everybody asks me that question.
- Oh, and how could I be original in asking you something?
- Well... People ask us strange things...
- Ja! - Intervem o Tod. - Thay ask us about our girlfriends and about sex all the time! - A Ana solta um risinho e diz-lhe qualquer coisa que eu não percebo.
- Gosh, we wouldn't ask you that!
Já acabámos três garrafas, só os seis (cinco, o outro não bebe) e entre conversas.
- And groupies. - Continua o Tod, bebendo mais um pouco e passando a garrafa à Ana que já está practicamente ao colo dele. Que sorte. Estou mais esborrachada contra o George do que outra coisa qualquer. - You would be groupies?
- Oh, no! - Nego, imediatamente. - I mean, I believe you like that but...
- I don't like that. - Interrompe o Will. Oh, meu anjo, eu sei que não gostas! Sorrio-lhe e encho-lhe o copo. - They are stupid. We shouldn't have sex with someone we don't know.
O Tod diz qualquer coisa em alemão para gozar com ele, penso eu, e depois começam todos a falar em alemão e nós a apanhar do ar.
- Oh, sorry. - Desculpa-se o George, passando as mãos pelos meus ombros. Estás a esticar-te, darling. Não era bem isto que eu estava a espera. - You don't speak any German?
- Just stupid things. - Respondo. A Ana diz algumas palavras com ordem dispersa e sem sentido umas com as outras para ilustrar e o Tod ri-se como se fosse hilariante. - And rude things.
O Will tira um cigarro e vejo uma óptima oportunidade para saltar do colo do George e acendê-lo. Ele agradece, sorri e acende o meu. Agradeço, pondo-lhe a mão na perna. Se calhar estou a ser um bocado atrevida demais mas ele não se queixa, portanto...

XII - E se for mesmo uma granda noite?

Will Kovich. O único, the one, o amor da minha vida. Caraças. Não sou do género de me apaixonar. Nem paixoezinhas, nem paixonetas. Acho que só me apaixonei mesmo a sério uma vez e outra mais ou menos e fiquei tão na merda por ter levado com os pés que jurei para nunca mais. Durante três anos levei uma vida de mulher de aço celibatária, indiferente às minhas amigas que mudavam de namorado com frequência e encontravam os amores da sua vida (ou então não), sempre dentro de outra dimensão onde os gajos eram todos farinha do mesmo saco e só nos queriam comer ou às nossas amigas. Ainda continuo a achar que é assim.
Muito menos fui do género de amores platónicos por gente famosa. Nunca tive posters nas paredes, nunca comprei cd's dos backstreet boys nem revistas para adolescentes. Achava toda essa treta puramente comercial e com o objecivo de mover a pito-adolescência em grandes massas nas quais me abstive de me integrar. Era diferente, achava eu. Tive de chegar aos 17 anos para cair na teia onde só caem bichinhos com idades compreendidas entre os 10 e os 16 anos (o mais tardar). Um ano devia fazer toda a diferença. Não fez.
Ia o Verão a meio e estava eu no ginásio a abater tardiamente as gordurinhas instaladas um pouco por todo o lado que me começaram a assombrar após a anorexia (quando voltamos a comer como comíamos, engordamos drasticamente). E ia deitando um olhinho à MTV que passa em ecrans plasma em frente às máquinas de cardiofitness, gosto imenso de ver vídeos de música (e imaginar que sou eu ali a dar um show ao estilo Rhianna com um corpo de fazer inveja e a mover massivamente as pessoas a adorarem-me). Passou uma música nova, de uma banda que nunca tinha visto. "A" vocalista pareceu-me só mais uma menina gótica bonita e que, uma vez confrontada com a minha cara suada no espelho, me deprimiu bastante. Daí a dias, vim a descobrir por ali que "a gótica", "aquilo", era um rapaz. Um rapaz! Devo ter rido pouco. O mundo anda mesmo ao contrário, como diz a minha avó ou outra avó qualquer. Mas, sem explicação lógica, o facto é que o meu coração batia sempre que via aquele videoclip e no espaço de um mês já sabia tudo o que tinha encontrado na internet sobre os ditos rapazinhos alemães, já tinha visto todos os videos e decorado grande parte das músicas e inclusivé encontrado uma amiga minha (a Ana) também completamente maluca pelo irmão gémeo do meu novo amor, o guitarrista da banda. E foi assim. Perco a contagem das horas que levei com os olhos presos no youtube ou nas ditas revistas que me recusava a comprar quando tinha 13 anos. Fui gozada por todos os meus amigos e pelos meus pais. Mas isto durante um ano e meio. E um ano e meio vivi com ele na cabeça, fiz a minha vida, editei os meus livros, começei a minha carreira como actriz e modelo principiante, arranjei um namorado, tudo com ele na cabeça. E aquilo não me abandonou. Até agora que estou em Berlim, sentada na retrete do quarto a cagar e ainda com o zumbido da música e dos gritos nos ouvidos e a sensação dele a tocar-me colada na minha pele. Estou a ofegar e as minhas mãos acusam sintomas da doença de Parkinson.
A Ana gritou durante meia hora "Foste fantástica! Foi lindo! Quase chorei! Parecias mesmo uma popstar! Quem me dera! Devias ter visto a cara dele!", estrafegou-me com abraços e parecia quase mais feliz do que eu.
E agora aqui a raspar com os saltos por entre as lajes da casa de banho enquanto alivio a minha barriga dorida de tanta emoção, sinto-me o centro do mundo. Acho que fiz muitas boas acções ultimamente e que o sr.karma está contente comigo. Ou então que tenho a mão de Deus a pairar na minha cabeça, ou então que nasci com o rabo virado para a lua. Qualquer coisa que me fez ter tanta sorte hoje!
- ROYAL BURG! ROYAL BURG! - A Ana inrrompe por ali a dentro, repetindo-se como se não tivesse mais nada no cérebro. E naquele momento, duvido que tenha.
- Ha...? - Faço uma cara de débil mental.
- Vamos para lá já já já, despacha lá essa merda! Vai ser hoje, vamos conseguir! Ele vai lembrar-se de ti!
Olho para ela com ternura (o que é difícil quando se está sentada numa retrete e a fazer o que tem de ser feito).
- E tu vais finalmente comer o Tod à grande e à francesa, como já sonhas há tanto tempo. - Ligo o telemóvel para ver as horas. Grande erro. Parece quase de propósito, cerca de vinte segundos depois começa a tocar. Número privado?
- Estou? - Antendo.
- Joana...
- Luís! - Quase engulo a língua. Foda-se, meu! A Ana paralisa ao meu lado.
- Joana, mandei-te centenas de mensagens ontem à noite e hoje, liguei-te imensas vezes e nada. O que é que andas a fazer? - O tom é sério. A puxar para o zangado.
- Nada. Fiquei sem bateria.
- Desde ontem até hoje?
- Sim.
- Desculpa, mas estás a esconder-me alguma coisa. Parece que estás. O que é que há de tão interessante para fazer aí que te esqueças de carregar o telemóvel?
- Luís, eu não tenho de estar sempre disponível. Também nunca sou chata contigo. Não temos de passar a vida a falar.
- Eu sei que não, mas às vezes apetece-me se é que posso.
- Podes. Mas não tens o direito de desconfiar de mim! - Ai não, não.
- Deste razões para isso.
- Desculpa? Só podes estar a gozar! - Estamos a discutir. Mesmo. E eu estou tão excitada com a ideia de estar uma noite inteira enrolada com o Will no Royal Burg que só quero despachá-lo. Ainda que fique a detestar-me. Não o quero agora. Não quero que ele seja meu namorado, agora. - Olha, Luís, não tenho paciência para as tuas insinuações. Quando quiseres dizer alguma coisa de jeito liga-me. Ou não ligues de todo. - Desligo. Fui estúpida e irracional e tudo o que disse não veio a propósito nenhum. Só queria mesmo dar-lhe um motivo forte para não insistir. Vou-me arrepender tanto. Contudo e estranhamente, não estou incomodada. Só quero que ele fique longe enquanto aproveito aquilo que já desejava muito antes de o conhecer. E ele não veio alterar nada. Quero esquecer que ele existe, esta noite. Como se tivéssemos realmente acabado.
- Ana, vamos por-nos lindas. - É tudo o que digo e ela encolhe os ombros e segue-me.

O meu vestido da Calvin Klein de 200 euros. É simplesmente perfeito. É cai-cai e curtíssimo, todo por igual, num tecido sintético, brilhante, aderente e preto que realça todas as minhas curvas (até as que não quero realçar) e me faz parecer uma pornstar dos anos 50. Eu estou mais virada para o parecer um chouriço preto mas a Ana insiste que estou uma bomba. Os sapatos são a minha pièce de resistance que não me canso de admirar: as sandálias de tiras pretas Chanel, oferecidas pela minha tia quando fiz dezoito anos porque segundo ela "é criminoso chegar à idade adulta sem uma única peça de estilista no armário" e cujos saltos me fizeram seriamente pensar que mais depressa me equilibrava numa corda de circo. E pinto os lábios de encarnado que é uma coisa que nunca fiz na vida e que acho que só as mulheres que se sentem sexy o fazem. E eu estou a sentir-me sexy. Dou volume aos meus caracóis dourados e abuso infinitamente no rímel e eye-liner. A Ana leva uma saia e um top pretos, ultra-curtos e uns sapatos de salto que roubou à mãe.
Um estoiro. Estamos um estoiro. Sem palavras. Próxima paragem (e de coração a saltar para fora da boca), Royal Burg. São 11 e meia da noite.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

XI - Uma num milhão

Não sei quanto tempo passa enquanto estou hipnotizada por ele. Com aqueles movimentos ridículos que parecem um projecto de dança mas que mais parece estar a ser electrocutado, fica ainda mais sexy. E faz uns olhares para o vazio (que as pitas preferem ter na ilusão como sendo para elas e entram em extâse) que dão cabo da minha postura e dos meus saltos de mulher-fatal. Sou uma adolescente a viver um sonho. Estou mesmo ali colada à frente dele, acho que os nossos olhares já se cruzaram imensas vezes mas pode ser só impressão, ele tem aqui um milhão de caras e não deve estar a olhar para a minha.
As crianças saltam à minha volta. Parece que sou a única que não estou a saltar e sinto-me parva. Salto também e sinto-me ainda mais parva. Eu não tenho a idade delas! Que raio estou aqui a fazer? Olho para a Ana. Parece um daqueles animaizinhos da disney a pular feliz e contente. OH! Ele está completamente inclinado para cima de mim. Com o microfone quase espetado no meu nariz. Uma chuva de mãos quase me engole para se apoderar dele e eu limito-me a sorrir e ele sorri e no meio da canção diz "dich" e aponta para mim. Não pode ter sido para mim! Caraças, deve ter sido para outra miúda qualquer. A Ana está histérica.
- Foi para ti! - Berra no meu ouvido. - Ele apontou para ti! - Enxoto-a como uma mosca. Que parvoíce, porque haveria de ser? Vou a puxar de um cigarro para me acalmar os nervos quando ele se inclina outra vez e diz qualquer coisa em alemão ao microfone que não entendo. Deixo cair o cigarro e olho em volta. O que se passa? As miúdas estendem as mãos como se fossem o homem-elástico ou assim e empurram-se umas às outras mas ele continua a repetir a mesma frase enquanto elas gritam. Tem a mão estendida mesmo à minha frente. Foda-se. Não pode ser. Reparo que tenho o biquini todo de fora do vestido.
- It is YOU! - Alguém me grita ao ouvido tão alto que fica a tinir. YOU? You, eu? Demoro algum tempo a processar a mensagem até o meu querido cérebro emitir a o sinal que através dos nervos motores forma nos músculos do meu braço a resposta para agarrar a mão dele perfeitamente manicurada. As miúdas ajudam-me todas a subir para o palco, acho que têm nisto a ideia de uma espécie de união.
Estou no palco. Em pé, em frente a uma multidão gritante. Com a luz na minha cara não consigo distinguir nada concreto mas imagino qual deve ser a expressão da Ana. E delas todas. E tanbém penso que se deve estar a ver muito bem as minhas cuecas pretas. Talvez fosse conveniente concentrar-me na figura que tenho ao lado. Ele. O Will. Com o qual eu sonho há um ano e meio e se isso contar como traição, sim, andei a trair o meu namorado com ele. OHMEUDEUSOHMEUDEUS! Ele é tão giro ao vivo como em todo o tipo de produtos media que consumi para contemplá-lo. Tem uma cara daquelas bonitinhas que nos despertam a mesma inveja que as supermodelos. E mesmo suado e com aquela t-shirt horrorosa está bom nas horas. Acho que vou desmaiar. Ele diz qualquer coisa em alemão mas eu grito para o microfone, a fim de me fazer ouvir por cima da histeria colectiva crescente:
- English, please.
Ele exibe um sorriso pepsodent. Sem truques.
- Do you want to sing with me, in German? - Um bocado comido e aos solavancos, mas um inglês perfeitamente compreensível. Se quero?? Filho, contigo até cantava em chinês! Só não estou ainda mentalizada desta palhaçada toda. Eu, euzinha, eu e o meu piercing em cima do palco. Ele escolheu-me a mim! OOOh, por favor, não me abandones, cérebro! Não posso parecer uma parva só a sorrir e a ofegar. É suposto responder!
- Yeah, sure!
Soa a bateria e a outra tralha toda. O que me vale é que sei a letra em alemão ou ia parecer infinitamente acéfala. Ah, um pormenor importante: Eu não sei cantar! Quer dizer, saber sei, mas toda a minha qualidade vocal me abandonou a uns miseráveis gemidos e grunhidos de excitação que tenho medo de soltar ao microfone. Ele começa a cantar, sorri, põe o braço em volta dos meus ombros, saltita, eu saltito. Ele cheira bem. Ah, é a vez de eu cantar... Mein götten, seja o que Quiseres! Começo. Nem sai muito mal. Encontro finalmente utilidade em todas as vezes que li as letras sem as perceber e ouvi as músicas a perceber ainda menos. Está a resultar! As pitas parecem não discordar muito, pelo menos ainda não levei com nenhum tomate na cabeça. Passam-me imagens de coisas parvas, os travestis de ontem à noite, as minhas cuecas pretas da sorte metidas no rabo, os nossos casacos do chinês abandonados algures sob uns all-star ou umas sabrinas com caveirinhas. Montes de coisas. Vamos cantando a música a meias, sempre a rir e a dançar e eu sinto que estou mesmo a dar espectáculo, isto é lindo! Tenho uma multidão a delirar aos meus pés (aos pés dele). Improvisamos um passo de dança idiota, eu invento e ele imita e estou mesmo a ser uma superstar! Isto é bom demais! Se for um sonho, então só quero aproveitar cada bocadinho até acordar.
Quando terminamos, ele faz-me outro grande sorriso.
- I love to sing with you - Diz qualquer coisa parecida e eu faço uma vénia (Não sei por alma de quem!!!!), dou-lhe um abraço e pisco o olho.
- My pleasure. - Respondo. E agora? Fico aqui especada? Aparece um gorila de fato para me levar para baixo novamente. Oiço um assobio e volto-me para trás. O baixista está a rir-se para mim e a olhar para as minhas pernas. Coro e não é pouco. Decido não olhar mais para trás e concentro-me em encontrar o meu lugar anterior. A Ana salta para cima de mim e faz-me cambalear para trás com a força da abordagem.
- FOI LINDO! - É só o que consegue dizer. E foi mesmo! Inacreditável. Para lá de espectacular. O tempo que resta do concerto é o tempo que demoro a recompor-me. E a ajeitar a minha roupa interior. Quando termina, é a locura. Penso que, por momentos, vou ficar ali para sempre e sucumbir lentamente ao apodrecimento esmagada contra esta gente toda. Não tenho noção de quanto demoramos até respirar ar fresco mas sei que, algures pelo meio, apanho uma conversa entre os seguranças onde é mencionado o "Royal Burg". Espera lá. Royal Burg é o bar mais em voga de Berlim, onde já li que se realizam montes de eventos e festas privadas e onde os famosos cá do sítio preferem passar as suas noites. Será que eles vão para o Royal Burg??? Não, era sorte a mais. O que fazemos?
"Na dúvida, faz", é só o que me ocorre.
Ofereço trinta euros ao homem do taxi para nos tirar dali rapidamente e fazer um percurso de pouco mais de 4 euros. Temos de ir até ao hotel mudar de roupa para irmos para o Royal Burg. Pode ser uma ideia estúpida mas até aquilo dos casacos e dos walkie talkies funcionou, não foi? E eu fui mesmo ao palco. Cantei mesmo com ele.
Foda-se. Na dúvida, faz. Faz mesmo.

X - Concerto! Tudo por um lugar ao sol

Acordamos à uma da tarde. Dormimos umas míseras sete horas (o que para mim, que sou bicho de dormir séculos, é muito pouco). Mas temos de nos apressar antes que a enchente de pitalhada invada o local (que vai ser o Estádio Olímpico, para verem bem a dimensão da coisa), aquilo é uma loucura. Pelos quinquilhões de vídeos de concertos deles que desperdiçei o meu tempo a ver quase me senti esmagada pela imensidão de cabeçitas e mão no ar, acompanhadas de uma banda sonora de gritos ultra-sónicos (daqueles que ultrapassam a barreira da dor e só os animais é que ouvem e a nós rebenta literalmente os tímpanos). Tenho medo. Tenho medo de ser pisada por um exército de fãs em histerite aguda e depois os meus pais terem de ser confrontados com as notícias "Jovem escritora morta em Berlim por exército de adolescentes no furioso despoletar da puberdade, leia-se, loucura por banda alemã de sucesso". E aí toda a gente saberia onde estou e que raio estou aqui a fazer, para além de morrer, o que é totalmente secundário.
Apesar de estar tudo planeado há meses, ainda demoramos uma hora a escolher o que vamos levar. Este é o momento decisivo e mais importante por que estamos aqui, todos os segundos que gastámos nesta cidade nos conduzem a isto. E tem de ser perfeito, não há maneira de não ser. Temos o plano. Temos tudo.
Rezo dez avés-Maria e um Pai Nosso, pelo sim pelo não, e enfio-me dentro de um vestido branco e rendado curtinho e calço as botas de couro castanhas. Acho que estou gira mas quando vejo a minha cara de sono tenho um espasmo de horror. Base chamada à recepção. Desta vez não nos maquilhamos à balda. Demoramos o tempo necessário a delinear muito bem os olhos, a escolher cuidadosamente as cores das sombras, o rímel é posto e reposto. Às 4 horas, depois de tudo estar sintonizado e os estômagos cheios (mas apertados pelos respectivos vestido e top), temos exactamente 4 horas para estarmos no Estádio e pormos em prática o plano. Chamamos um táxi. Não antes de verificar pela centésima vez se temos as nossas cuecas da sorte, fios da sorte metidos dentro dos sutiãs da sorte e todos os anjos e arcanjos do nosso lado. Here we go!

Nunca vi tanta miúda junta, nem quando ia ao garage. Juro por tudo o que é mais sagrado que fico a sentir-me insignificante. Não são lá muito giras e a maioria delas deve odiar a balança, mas são muitas. E gritam. Choram. Berram. Será que precisam de ajuda? Prefiro não me aproximar, à cautela. O plano está bem engendrado e não pode correr mal.
Passo a citá-lo: Casacos pretos até ao joelho e fechados até ao pescoço, com ar de serem excelentes mas que custaram 10 euros no chinês. Devem ser daqueles de cartão que se desfazem quando lavamos mas se tudo correr bem, nunca o vamos chegar a saber. Óculos Emprio Armani falsos, cabelo apanhado, a expressão mais séria que conseguimos e uns walkie talkies velhos à laia de intercomunicadores. Já nos cagámos a rir muitas vezes à pala deste plano idiota mas acabámos por concordar que, por muiro estúpido que fosse, era o mais provável a obter resultados proveitosos.
Sobre as cabecitas saltam cartazes a dizer o mesmo de todas as maneiras possíveis: "Tod ou Will (São os nomes respectivamente do guitarrista e vocalista da banda) és lindo e eu amo-te". E mais montes de fotografias deles. Isso é tão estúpido. Até parece que eles não sabem como é que são e que nunca se vêm ao espelho e precisam de ver fotografias deles para onde quer que se virem. Whatever. Mantemo-nos afastadas e falsamente alheias à palpitante confusão que se desenrola para ali. Algumas pitas parece que vão hipervetilar ou assim. Secretamente, também me sinto a hiperventilar de emoção mas nãoo posso demonstrá-lo. Firme, Joana. Firme.
Os gritos sobem de volume. Está a chegar uma limosine. Não acredito.
- Ana! - Berro, desmanchando a postura.
- Oh meu Deus! - Ela deixa escorregar os óculos até à ponta do nariz. Odiamo-nos e odiamos o nosso plano naquele momento por não podermos correr, talvez até partir os saltos por entre as pedras da calçada ou espetá-los no olho de alguém, mas correr por cima daquela massa de criaturinhas gritantes que se avalancha para cima da limosine e saltar-mos para cima deles. Não estou a acreditar. Toda eu tremo como gelatina. Talvez isto seja o mais perto dele que alguma vez vou estar e não consigo sequer distinguir bem as suas feições. Saiem os quatro, muito sorridentes para os flashes que disparam como se não servissem para outra coisa (e não servem). Não se detêm a dar autógrafos, acenam imenso e depois correm para dentro do Estádio, sempre escoltados por alguns gorilas. E a multidão está em delírio. Foda-se. Juro aqui a pés juntos e sobre solo alemão que nunca perdoarei a puta do meu karma se isto se ficar por aqui. Vamos mesmo por o plano em prática.
- Ana... - Começo a dizer mas ela está a respirar tão depressa como uma asmática e limito-me a agarrar-lhe a mão com força para que perceba a vontade que estou de levar isto para a frente. Somos mulheres ou somos ratos?
Passada uma hora em cruéis e desesperadas tentações de roer as unhas ou partir as bocas às miúdas para que se calem e me deixem ao menos saborear a sensação de estar viva e estar aqui, a massa começa a mexer-se. Começam a entrar, finalmente. Tempo de partida.
- Ao meu sinal... Já! - Pegamos nos falsos intercomunicadores e vamos falando em inglês frases como "Understood, sir. unit 105" e "Copy?" completamente aleatórias como se fôssemos parte da segurança. Não nos rimos por muita vontade que dê. Surpreendentemente, as miúdas vão abrindo passagem e avançamos rapidamente entre este caudal de peixes tão originais, todos de preto e com luvas sem dedos e bocas abertas e lágrima ao canto do olho esborratado de preto. Afastamo-las com um ar seguramente profissional e este processo dura até à entrada, onde estão os verdadeiros seguranças. Rapidamente, desfazemo-nos da porcaria dos casacos do chinês, mostramos os bilhetes, o segurança pisca-nos o olho e entramos. Uau! Não acredito que funcionou!!! Agarramo-nos uma à outra, festejando a vitória por poucos segundos para podermos voltara acelerar o passo, dando os encontrões que são precisos até à primeira fila. Coladas ao palco. Coladinhas ao palco! Sinto um aperto no estômago, uma sensação de premonição de que isto vai correr muito bem ou muito mal. Mas que vai ser inesquecível. Saltito nas minhas botas de camurça, sentindo-me felícissima. Posso estar a ser parva e infantil mas há muito tempo que não me sentia tão contente comigo mesma. Estou a fazer figas atrás das costas.

Não sei quanto tempo passa, tal é a ansiedade. As luzes projectam-se enquanto o último pessoal atravessa o palco em alvoroço e em poucos minutos, soam os primeiros acordes. Eles entram pela ordem que sempre os vi a entrar em todos aqueles vídeos no youtube e sei lá mais onde, primeiro o baixista, depois o guitarrista, o baterista e finalmente, ele. Traz uma t-shirt cor-de-rosa muito estúpida mas who cares? Não consigo tirar os olhos dele. E aquela chinfrineira toda que me ensurdece parece desaparecer. Exactamente como nos filmes.

IX - Accidentally in Porno Party

Dançamos que nem umas loucas pelos bares. Já tinha umas saudades de fazer isto. Há pessoas que olham para nós mas olham um bocado para toda a gente, só vejo putas loiras e com as pernas roliças apertadissimas em minissaias e com as mamas de fora, portanto até estamos mais ou menos decentes. Bebemos mais dois shots e deambulamos pela rua fora, procurando avidamente o sítio com aspecto mais barulhento e movimentado.
Há uma discoteca com uma cartaz luminoso giganetsco e que está apinhado à entrada. Meia toldada pela bebida, consigo ler "party"num letreiro por detrás de umas quantas cabeças. Fazemos um sorriso cúmplice e deslizamos (ou antes tropeçamos) até à porta, onde um segurança exibe o seu mais tarado sorriso e levanta o cordão encarnado para nós passarmos enquanto ele mesmo passa um olhar prolongado pela extensa quantidade de pele que temos à mostra e comenta qualquer coisa em alemão com as raparigas extremamente produzidas que estão ao seu lado. Enganei-me. Não são raparigas, são rapazes extremamente produzidos e que nos olham por entre as espessas pestanas falsas de cores vivas. Um deles tem umas calças prateadas à boca de sino e um top de rede branco e os outros ostentam mesmo umas vistosas perucas ruivas que quase não deixam sombra de dúvida de se tratarem de umas prostitutas de luxo. São travestis de luxo. Que nojo. Há também algumas raparigas gorduchas com o cabelo rapado e argolas no nariz que soltam risinhos. Será uma noite gay? Não, começamos a ver algumas pessoas mais ou menos normais. A maioria dos homens tem camisas de cores garridas abertas até ao peito, calças justas e imenso gel no cabelo loiríssimo que o faz parecer mais escuro. As gajas parecem umas autênticas bonecas de silicone equilibradas nos saltos mais altos que já vi. Parece que a clientela é toda seleccionada para ser gira ou vistosa ou as duas coisas e sentimo-nos lisonjeadas.
Já um pouco desidratada, dirijo-me ao balcão a acender um cigarro e peço uma garrafa de água à barbie que está no bar e da qual consigo ver o pipi só de olhar para a cara dela. A única coisa que posso considerar como roupa e que ela enverga são umas borlas fluorescentes a cobrir os mamilos e uma tanga tão reduzida que mais valia não a ter posto, porque ninguém ia notar. E todas as outras barwoman seguem o mesmo género. Nunca antes durante os meus 18 anos e meio de vida senti qualquer tipo de impulso sexual perante uma mulher mas naquele momento não tinha dúvidas que não hesitaria em ir para a cama com qualquer uma daquelas.
A música estoira a milhares de décibeis e só consigo berrar ao ouvido da Ana que isto é tudo muito diferente. Ela faz que sim com a cabeça, mas não me deve ter ouvido. O ambiente é fielmente descrito como hormonas aos saltos. As pessoas estão praticamente a fazer sexo na pista de dança. Estou tão chocada como divertida porque não penso em meter-me ali no meio. Somos abordadas por uns gajos que mais parecem manequins de revista com caras perfeitas e quase femininas. Estava já numa animada e caliente dança com um deles, com a embriaguez a tomar conta dos meus sentidos, quando uma luz cor-de-rosa forte se projecta por toda a pista, guiando os olhares até ao palco. A música muda.
No palco surge meia dúzia de barbies com mamas de Pamela Anderson a saltar por tudo quanto é sítio e agarram-se aos postes, iniciando uma dança sugestiva. Não acredito que viemos parar a uma festa de strip! Desato-me a rir e a Ana também. Foda-se, nunca na minha vida vi um espectáculo de strip e tive de me meter acidentalmente num bar em Berlim para me deparar com isto.
Saímos, aos trambolhões e a sufocar de tanto rir, os abdominais a doer.
- Porno Party! - Diz a Ana, espetando o dedo no letreiro. - Como é que não leste isto?
- Eu ler, li, mas achei que fosse uma merda qualquer em alemão. - Rimos como ébrias que somos. - Bem, foi o nosso baptismo de strip. - Concluo, quando consigo parar.
- Viste aquelas gajas? Fizeram-me sentir que saio ao meu pai. - Queixou-se ela, puxando o decote para baixo e deixando metade dos homens que estão cá fora especados a olhar.
- Querida, aquelas vieram directamente da loja! Vamos mas é dançar por aí com as nossas verdadeiras.
- Bora lá!
Estou a atrofiar tanto. Fumamos o charro juntas enquanto dizemos disparates e fazemos confissões que já sabemos de cor e salteado e dançamos e bebemos até ao limite da incosciência para podermos dar as indicações ao taxi para voltar para o albergue.
São 6 e meia da manhã quando rebolamos para as camas, estoiradas e felizes.
- Já posso dizer que fui a um bar de strip. - Comento. Rimo-nos durante mais meia hora e adormecemos.
Acho que sonho com qualquer coisa tão estúpida que nem vale a pena relatar.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

VIII - A Kurfürstendamm (santinho!) é fixe

Esforçei-me imenso para afastar de mim a negatividade e enchi-me de coragem para desligar o telemóvel. Sei que amanhã me vou arrepender, mas tenho de desligar da minha vida esta noite. Na verdade, há muito tempo que não me divirto à noite (nem de dia). Posso não ser a celebridade em pessoa, está certo, mas desde que me tornei famosa por causa dos livros e esta coisa toda agora com o Luís (que também tem um certo nome), nunca mais pude fazer as figuras que sempre fiz sem que alguém mais colectivo ficasse a saber. E só de me lembrar de há uns meses ter aparecido de cigarro na mão numa revista (depois de ter prometido solenemente ao meu pai que deixava de fumar) e do sermão que levei depois, ainda sinto o meu estômago contorcer-se. Ou seja, tudo o que implique uma noite daquelas para estoirar a divertir-me e me desgraçar ao máximo - ou seja, aquelas noite que nunca podemos dispensar por muito tempo - começou lentamente a abandonar a minhas rotina noctívaga. E começei a ficar farta de sair ao ponto de me meter em casa e fincar o pé contra os meus amigos para não ter de passar mais uma noite preocupada em estar perfeita dos pés à cabeça e do principio ao fim, não vá algum flash menos discreto apanhar-me por aí.

Mas hoje, é diferente. Estamos em Berlim e vamos jantar algures pela Rua Kurfürstendamm, que é tipo a avenida da liberdade alemã e depois rumar ao bairro de Prenzlauer Berg, o sítio mais bombástico e com os bares e discotecas mais badalados da cidade. E li por aí que a noite em Berlim é como se não houvesse amanhã, sem limites nem pudores. Vai ser brutal!

Escolho uma combinação arrasadora para a ocasião e que se a minha avó me visse, benzia-se de certeza. Estou-me a cagar se pareço uma puta, aqui só parecemos mal se não parecermos putas.

Minissaia de cabedal, botas a condizer e um top estilo rock num tecido preto sintético brilhante, sem decote mas com as costas todas à mostra. Tive de fazer uma boa ginástica com o sutiã para não se notar mas posso admitir que o resultado é óptimo. O preto é o nosso novo máximo e a Ana está com um decote que faz o meu conjunto parecer um hábito de freira. Pintamos imenso os olhos e esticamos o cabelo uma à outra.

- Foda-se, que gata. - Diz-me ela, lançando um olhar sedutor e depois ri-se.

- Olha que tu! - Devolvo o elogio. Levo o meu casaco novo e uma pochette preta.

Ao atravessarmos o hall do hotel, fica tudo a olhar para nós. De facto, os meus stilettos a enfiar-se nos buraquinhos da carpete criam uma claro contraste. Mas não nos sentimos mal. Isto até deve ter baratas e a única razão pela qual acho que não encontrámos nenhuma no quarto foi por eu ter gasto metade de um frasco de perfume para secar uma borbulha (eficaz, mas despendioso), levando ao empestamento de toda a divisão. E não em parece que os bicharocos gostem muito.
Os saloios alemães mostram-nos sorrisos sujos e tarados que ignoramos (ou fingimos que ignoramos). A Ana está mais preocupada em contar o dinheiro a ver se chega para 3 táxis e a alisar a franja, tudo ao mesmo tempo, num processo de destreza. E eua desprender os saltos do tapete enquanto não deixo que a saia suba demasiado. E ainda dizem que somos o sexo fraco? Queria ver um home a fazer tudo isto! Sem ligar à namorada nem ao melhor amigo, nem à mãe.
Daí a 15 minutos, estamos na Kurfürstendamm Street. Visto à noite, parece fantástico, uma espécie de SoHo alemão com montes de restauramtes com aspecto fixe, luzes e gente gira. Aposto que eles vêm aqui, penso para mim mesma. Comento com a Ana e concordamos que seria brutal encontrá-los, mas é muito pouco provável. Os popstars não devem ser de grandes farras antes do concertos e fartos de farras devem estar eles. Só devem ir a festas privadas.
Passa um autocarro com um cartaz enorme com a cara deles. Como é que se pode ser tão perfeito?, suspiro. Olho para a minha saia e penso como adorava que ele me visse assim vestida. Hmm... o meu pensamento deriva por cens obscenas mas tenho de me concentrar em atravessar a estrada.
A Ana pede a um homem que nos tire fotografias e vamos para o restaurante, a beter as pestanas carregadas de rímel e com passos de anca como se fôssemos umas deusas em cabedal.Escolhemos uma mesa bem centrada (para que todos nos vejam) e sento-me cuidadosamente para não deixar as cuecas à mostra, o que seria muito pouco sexy. Os empregados desfazem-se em atenções conosco, oferecem-nos martinis como aperitivos. Estou mesmo a ver qianto é que esta merda toda vai custar, ainda bem que poupámos no almoço.
Depois dos nossos olhos caírem sobre os estrondosos 400 euros que custa uma garrafa de vinho mais ou menos bom e não encontrarmos nada que soe parecido com sangria, abandonamos a ideia do álcool ao jantar.
- Ia pedir um vodka-cola. - murmura a Ana, abafando o riso de vergonha.
- Não te sintas mal, eu ia pedir uma cerveja. - Comento. Como é naturakm íamos parecer umas pacóvias se pedíssemos isso para a mesa num sítio destes.
Demoramos séculos a trincar e a cortar imaginariamente as nossas saladas para não dar o ar de alarves e depois de pagar (não me quero lembrar da conta, foi apenas um deslize), vamos virar umas bebidinhas para o balcão.
Uns homens gordos e há bastante corados, oferecem-nos cerveja e vodka às duas e sorrimos muito que nem umas parva por não percebermos nada do que eles dizem enquanto repetimos "Danke" umas quatrocentas e setenta e quatro vezes como umas barbies sem miolos e automatizadas. Já estou cheia de calor e com vontade de rir por tudo e por nada. Cambaleio até à casa-de-banho mas não consigo fazer chichi sem me apoiar nas paredes e retocar a maquilhagem é extrememamente difícil. Devia estar com medo de dar uma grande queda dos saltos abaixo mas nem me preocupo.
Ficamos um bocado no restaurante à conversa com uns gajos mas eles depois querem que vamos com eles não sei para onde (é o que consigo traduzir do seu péssimo inglês) e bazamos logo. A noite é única e exclusivamente nossa!
Saímos do restaurante e rodopiamos pela rua. Está uma noite espectacular! Em vez de estoirar dinheiro num táxi, decidimos apanhar uma boleia. Isto é, ficamos na beira da estrada a ver os carros que passam e cujos ocupantes não tenham ar de violadores e depois perguntamos se vão para o Prenzlauer Berg. Têm todos ar de tarados. É melhor ir num qualquer. Eu sou boa na porrada e trouxe o meu spray pimenta e os meus saltos matadores.
Entramos num Volkswagen azul onde os gajos parecem ser uns putos, devem ser mais novos que nós. Não me assustam minimamente e aceitamos a boleia. Estou redondamente enganada. Durante os dolorosos 10 minutos que demora a viagem mas mais parecem 10 séculos, um dos rapazes não para de me tocar na perna e outro está com a vabeça praticamente deitada nas maminhas da Ana. Colo-me toda à porta e ao vidro, procurando desesperadamente um sinal de que já tivéssemos chegado. Assim que começo a ver muita gente, bares e uma miscelânea de músicas house e garage em estereo, pergunto atabalhoadamente se é aqui e assim que recebo a confirmação, abrimos as portas e fugimos dali para fora. Que horror! Estou prestes a acender um cigarro para me acalmar quando vejo um tipo a enrolar um charro, mesmo à minha frente. Foda-se, penso. Há quanto tempo que não fumo. Já nem me lembro do gostinho. O Luís nunca fumou drogas e detesta que eu por vezes o faça. Vive na ignorância. Decido perguntar ao gajo se ele me vende alguma coisa, que eu sei enrolar, mas ele dá-me aquele para a mão e murmura qualquer coisa com a boca colada ao meu cabelo. Reviro os olhos enquanto guardo o rolinho na carteira para fumar mais tarde.
Let´s go party!

VII - Peace, wanted

Antes de voltar ao hotel, tomamos um café numa esplanada na Unter den Linden. Está a ficar um frio horrível e estamos a estoirar os miolos para descobrir como é que vamos sair hoje à noite com este gelo. Não trouxe roupa para condições sub-antárticas. Acendo um cigarro enquanto mexo com perícia o meu café americano (que é daqueles cafés enormes que sabem mesmo a água de lavar a cafeteira mas que são grandes e quentinhos).

A nossa primeira noite em Berlim. A seguinte é o concerto. Parece um coisa tão simples mas ando a sonhar com isto que nem uma maluca há meses. Acabo de mandar uma mensagem à minha mãe a dizer que está tudo bem quando o telemóvel começa a tocar. É o Luís. As minhas mãos tremem, e não é de frio. Atendo.

- Olá, bebé. - Ouço-o dizer do outro lado, com uma voz amorosa.

- Olá! - Respondo, animadamente. Ou falsamente. - Então?

- Então, estou cheio de trabalho. E tu, princesa? Como é que está tudo por aí? - Por aqui... Óptimo. Estou na Unter den Linden que a propósito é uma avenida de Berlim que de certeza que não fica no Alentejo.

- Hmm... uma seca, o costume. Não se faz nada. Já vi uns trinta filmes e li uns trinta livros. - Pois, claro. A Ana vai seguindo a conversa atentamente, como quem se está a divertir imenso. Mas não tem piada nenhuma!

- Que tótó. Já me estava a fartar disto e tinha saudades de te ouvir... - Oh, não! Ele quer uma daquelas conversas de duas horas! O que é que eu faço? Contudo, algo mais terrível me assola: o roaming! Ele está a pagar por esta merda minuto a minuto! Será que não vai perceber?? Ele tem assinatura, logo o dinheiro não se vai acabar a meio e... e se ele descobre?? Tenho de arranjar urgentemente uma maneira de desligar. Ana, ajuda-me! Deus, ajuda-me! - Onde é que estás agora? - Continua ele.

- A-agora? - A minha voz é tudo menos firme. - Estou aqui no terraço. E tu?

- Eu estou no sofá, com manta e tudo. - Está com aquela voz melosa e sonolenta, típica dos namorados que querem fazer grandes conversas enquanto estão aninhados e prestes a adormecer.

- Pois... - Não sei o que diga. Estou bloqueada.

- Queria que estivesses aqui comigo... - Estranhamente, isto não me provoca nenhuma vontade de me teleportar para o pé dele. Nenhuma mesmo. Será de estar tão nervosa por estar a mentir? Eu adoro-o, claro. Tenho a certeza... Não tenho?

- Também queria estar. - Minto. - Mas não dá... - Solto um risinho.

- Adoro ouvir-te a rir. - Diz ele. Cada minuto me pesa mais na consciência. Talvez fosse melhor dizer-lhe qualquer coisa querida e depois arranjar um motivo para desligar. Mas ele depois vai ligar-me outra vez... Foda-se. Que situação! Estou a tentar fugir do meu namorado! Eu não o mereço. Eu não sou nada de especial para me dar ao luxo de estar a ser uma puta.

- Gosto imenso de ti... - Murmuro. A Ana revira os olhos. A pensar que raio estou a fazer.

- Eu acho que te amo, Joana. Já não consigo estar sem ti. - Não. Fiquei boqueaberta. Ele não pode ter dito isto. Ele ama-me? Luís, como é que podes amar-me se eu te menti e vim para a Alemanha atrás de um cantor que nem sabe que eu existo e que não pensava duas vezes se pudesse comê-lo? Agora acho que penso duas vezes. Três. Quatro.

- Nem eu. - Suspiro. Só para não o deixar pendente. Tenho mesmo de desligar. Tenho de desligar. - Luís?

- Sim?

- Olha, peço imensa desculpa mas tenho que desligar.

- Então? Passa-se alguma coisa?

- Não, não. Tenho de ir ajudar a minha mãe numa coisa.

- Quando te posso ligar outra vez?

- Não sei, vou jantar a seguir. Eu aviso-te. - Foda-se.

- Ok. Fico à espera. Beijinhos, adoro-te imenso princesa.

- Eu também.

- E olha...

- Diz.

- Aquilo que eu disse à bocado... É mesmo verdade. - Não sei se foi imaginação minha, mas doeu-me mesmo o peito.

- Obrigada...- Já não aguento. - Vá, adeus. Adoro-te. - E desligo sem o deixar dizer mais nada.

- Joana...? - Começa a Ana, mas eu interrompo-a:

- Não digas nada, se faz favor. Vamos para o hotel.

- O que é que ele te disse?

- Nada.



Metemo-nos num taxi até ao hotel e eu permaneço estranhamente silenciosa. Mais tarde, na banheira, não sei o que hei-de pensar. Parece que a minha vida é uma porra de um reality-show onde tudo acontece e não tenho o direito de controlar nada. Nem ganho nada com isso. E isto nem a Ana consegue simplificar. É uma coisa minha e para mim. No fundo, sou uma dependente, caraças sempre fui. E nem aqui, neste cu de judas (não propriamente) consigo libertar-me disto, desta minha tendência para embaraçar tudo. Porquê? Peace, wanted!...

VI - Fica sempre bem um bocadinho de turismo

Toc, toc, toc, pelas ruas de Berlim. Já demos uma série de voltas e também já faltou mais para suplicar por umas pantufas porque estes saltos dão cabo de mim. Há que sofrer para ser sexy, quem quer que tenha dito isto pela primeira vez, tem toda a razão e todo o meu apoio.
A cidade é bonita. Caminhamos ao longo da Unter den Linden e tiramos algumas fotografias, a dar aquele ar de turistas que ninguém gosta de dar mas que tem de ser. Também damos uma vista de olhos à Porta de Brandenburgo e ao Parlamento Alemão, que nos indicaram como os melhores spots turísticos para quem tem pouco tempo para ver Berlim. Vemos também os inúmeros museus (por fora, porque a arquitectura é espectacular) e o estádio olímpico e, por fim, um passeiozinho pela zona rural. Fica sempre bem. A Ana queixa-se que não quer ver tretas e quer ver rapazes mas eu arrasto-a comigo. Temos a noite inteira para ver rapazes e de certeza que vão parecer muito melhores longe da luz do dia (a julgar pelo que pude avaliar ao longo da tarde inteira). Vale a pena de dizer que um sem número deles se meteram conosco mas a minha fluência no alemão é duvidosa e a minha paciência para atiradiços, muito curta.
As ruas começam a encher-se de carros, hora de ponta para voltar do trabalho. Sempre ouvi dizer que os alemães trabalham demais. Então deviam ficar logo a dormir de véspera nos escitórios e poupavam-nos a este tráfico todo. Não é que seja incómodo, até não, eles não buzinam por tudo e por nada nem gritam asneiras nem passam os sinais encarnados. Parecem uns bonequinhos todos muito bem sicronizados, como numa cidade de brincar. Só que maiores e mais loiros.
Falta-me só ver uma coisa. O muro de Berlim. Toda a história da Segunda Guerra Mundial sempre me fascinou e não me perdoava se não fosse ver isso de perto. Suborno a Ana com todos os chocolates que me é possível comprar e com todas as promessas de uma noite fantástica cheia de gajos lindos que me é humanamente possível fazer para podermos ir. Ela guincha, diz que não de todas as formas, bate com o pé, amua e ameaça-me mas acaba por ceder. Triunfante (mas podre de cansaço), prossigo sob o céu que já começa a escurecer e que tem agora um bonito tom violeta e anil, com o sol incandescente como uma lâmpada. Momentanemante, sinto-me mesmo bem. Livre. Livre das merdas que a minha vida em Lisboa tem acarratado nos últimos tempos. Mas as quais não vêem a propósito nenhum.
Depois de fotografar o muro, rezo silenciosamente pelas vitímas do holocausto.
- Já acabaste, freira? Podemos ir agora? - Goza a Ana.
- Bora. Preciso de um café, estou a gelar.
- E não te esqueças do meu chocolate. Do primeiro de muitos.
- Ahah! Tens algum comprovativo escrito de que prometi isso?
- Tenho Deus como testemunha.
- Tu nem és católica, anormal.
- Então, tenho o Parlamento Alemão como testemunha.
- Vai lá dizer-lhes isso se conseguires! - Rio-me.
- Vou assaltar a tua carteira quando menos estiveres à espera.
- Danke por avisares!
- Parva. Olha vamos lá, estou farta de olhar para este muro idiota.
- É um bocado de História! Mas vá, vamos. A esta hora as nossas conversas são mesmo produtivas...
- Mesmo.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

V - Ich spreche Deutsch nicht

Primeira voltinha por Berlim. Antes de vir, estudei cuidadosamente um mapa com o local do hotel e arredores para o caso de sermos traídas pelo nosso sentido de orientação - que é francamente mau. Como já disse, desta vez pensei mesmo em tudo. A indumentária escolhida passou a um chic mais country e bem rebuscado. Estou feliz por ter emagrecido o suficiente para poder usar estas calças de ganga escura e cintura subida com um cinto largo castanho a condizer com as botas de camurça de cano alto. Escolhi também um top branco rendado e um casaco simples com corte militar. Se calhar, estou um bocado produzida demais para andar pelas ruas mas não quero arriscar-me a ficar com a auto-estima por terra caso veja outra vez uma daquelas bonecas. Até acho que estou gira, portanto não posso ficar deprimida.

- Tempo de caçarmos uns alemaezinhos. - Murmura a Ana, entredentes. Olhamos à volta, procurando os melhores exemplares da espécie. Aqui as miúdas não são assim tão giras, podem ser loiras e isso tudo, mas têm todas um ar andrajoso e um bocado bruto. Os gajos seguem-lhes o estilo, a oscilar entre o bimbo e o simplório. Sinto-me desiludida por me ter aperaltado toda mas prosseguimos, bem no centro da rua, mirando cada montra porque passamos. As pessoas mais velhas têm todas um ar extremamente frio e profissional, elas com o cabelo muito puxado para trás, fatos de calças ou saias travadas e eles barrigudos e com cara de poucos amigos. Não são uma gente lá muito amistosa, concluo.
Depois de tanto namorar as lojas, decidimos entrar. As empregadas dizem qualquer coisa em alemão que me deixam com uma perfeita cara de idiota. A Ana fica igual.
- Ich... spreche Deutsch nicht. - Pronuncio, meio atamancado. Ela abre um sorriso e responde:
- English? - Faço que sim com a cabeça. - If you need any help... We hope you are enjoying Berlin.
- Oh, we do! - Afirmo, sorrindo também. - Danke. - E começamos a ver as roupas. Depois de alguns minutos, perco-me de amores por um casaco preto. Giríssimo, numa espécie de renda retesada. E é perfeito, oh, fica mesmo perfeito com o meu vestido novo! Será um sinal? Não posso desperdiçar esta oportunidade. Dou por ele os 80 euros que vale, cêntimo a cêntimo, e dava ainda mais! Sem sequer reclamar de roubalheira. A Ana não escolhe nada. Mal o dela. Saio e admiro o meu casaco à luz do dia. Meu amor!
- Primeira meia hora à solta na Alemanha e já estás a trair o Luís com um casaco... - Goza a Ana.
- Ahahah... que graçolas! Olha, e que tal almoçar-mos? Quero ficar magra mas não quero ficar verde de fome.
- Completamente, também estou a morrer de fome. Vamos lá.
Fazemos barulho com os nossos saltos ao longo da rua toda. Parece que damos imenso nas vistas! Enquanto percorremos atentamente com o olhar tudo o que possa assemelhar-se a um local onde haja comida, a Ana nunca se descuida de qualquer rapaz giro que passe e tem de dar-me uma cotovelada para eu reparar. Ela acha que lá por eu ter namorado não quer dizer que não possa atirar-me a outros. A mim, são-me indiferentes.
No meio de tantos letreiros a anunciar as mais variadíssimas refeições (salsichas, salsichas. pizzas, salsichas, hambuergueres, salsichas e mais salsichas), preferimos uma casa de sandes. Oxalá tenham saladas!
O empregado também se dirige a nós com qualquer coisa em alemão.
- Ich spreche Deutsch nicht. - Repito, desta vez com mais segurança e monotonia. - English, please.
Fazemos o pedido.
- Mas porque é que têm de vir sempre com a merda do alemão? -lamento-me, entre garfadas.
- Olha... se calhar porque estamos na Alemanha. - responde a Ana, como se eu tivesse feito uma pergunta plausível.
- Pois... deve ser por isso.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

IV - Se calhar não

Ainda estou a recuperar do choque. Viemos pôr as malas ao "hotel" (se é que é legítimo chamar hotel a um edifício com sérias possibilidades de desabar a qualquer momento e com meia duzia de gatos pingados com aspecto de parolos que se passeiam pelos corredores à laia de "hóspedes".). Que nojeira. Não parecia tão mau na internet. Como é fácil ser enganado! Uma mulher gorda e alemã palrou um inglês todo agressivo e indicou-nos o quarto. Zimmer. Quais atletas olímpicas de alteres, carregámos as nossas espantosamente pesadas malas pelas escadas acima (O elevador não passou de uma mera ambição) até ao nosso belo zimmer, com cheiro a detergente barato alemão e com uma vista sobre uma lindíssima parede de tijolos alemães. Apesar disso, não hesito em afundar-me na cama. Queria dormir mas já não consigo. Ainda trago colada a mim a odiosa sensação de que todos os esforços que fiz desde o verão (ginásio todos os dias, dietas escandalosas, tardes de praia, cremes anti-celuliticos - sinónimo de rios e rios de massa) foram em vão, depois de ver aquela que podia muito bem ser a irmã mais nova da Claudia Schiffer. Estou-me a sentir um lixo. Decido partilhar isso com a Ana.
- Estou-me a sentir um lixo!
- Cala-te. - Retruca ela, com um gesto de impaciência. - Uma tarde de compras resolve isso. Vamos conhecer um bocadinho a cidade.
- O que menos me apetece agora é cruzar-me com estes Big Ben's humanos e com maminhas que são um atentado à fraca aparência física de alguns. - Ela ri-se. Mas não era para ter piada.
- Joana! Hallo! Mas vieste aqui para te lamentares? Para isso não nos tínhamos dado ao trabalho de sair de Lisboa. Vá, toca a levantar! - Ela grita e puxa-me até me enfiar na casa de banho para lavar a cara de sono.
Blargh! É a interjeição mais apropriada ao que se reflecte no espelho. Neste momento, sou a menina feia. O cabelo colado à cabeça, os olhos pequenos e inchados, o nariz GIGANTESCO. Oh meu Deus! Não! Involuntariamente, dá-se uma negativização das minhas expectativas em relação a esta viagem. E exteriorizo-as:
- Ana, sabes, se calhar nem devíamos ter vindo. - Ela subitamente olha para mim como se eu acabasse de proferir a maior calamidade à face do planeta. - Estou a falar a sério! Se calhar, vai ser um fiasco, nem vamos ficar à frente no concerto, nem nunca os vamos conhecer, nem eles nunca vão sonhar que existimos. Ou o máximo que vamos conseguir é uma fotografia com eles e um autógrafo igual aos ziliões que eles já deram a todas as estúpidas e histéricas fãs. E dos quais não se lembram porque não interessa. - Estou a ser convicente, o que me deprime ainda mais. - Ou seja, isto foi tudo em vão, um vaipe parvo de adolescente não concretizado na altura certa mas que só veio confirmar o óbvio: não vale a pena. Somos como aquelas pitas do avião mas mais velhas, logo devíamos ter juízo. - Termino, ofegante, horrorizada por ter destruído o meu sonho com estas palavras. Estou a ser sensata e madura. Estou a ter a atitude que todas as minhas amigas imploravam para eu ter. Mas estou a dar cabo daquilo que me fez vir até aqui: a esperança.
E a Ana parece que me vai bater.
- És tão idiota! - É o que ela diz. Como se o que eu estive para ali a desbobinar não tivesse o mínimo sentido. - Se dizes isso outra vez, ou se pensas isso outra vez, juro que te dou um estalo. Nós não viemos aqui para nos armar em sensatas ou tudo isto nos parecia também uma grande estupidez. E se calhar é uma grande estupidez. Mas é grande, pelo menos. Olha para aqui. - Ela abre a minha mala e quase me espeta na cara com o vestido de 200 euros pelo qual perdi a cabeça há uma semana atrás. - Estás a ver este vestido? Achas que alguma vez o ias levar quando fosses sair com o Luís? Claro que não! Esta é a primeira e grande oportunidade que tens de o usar porque aqui não és a Joana, és uma pessoa nova que está aqui para viver uma aventura! Livra-te dessa ideiazinha medíocre que tudo vai correr mal. Ok?? - Está com o ar totalmente trágico e apaixonado depois da cena do clímax. Uau! Mas depois, a expressão amolece. - Foda-se. - Desato-me a rir. Ela tem toda a razão. Estou aqui para não ser eu.
- Dá-me dois segundos. - Vou buscar a escova para dar volume ao cabelo e ponho creme hidratante nas bochechas. Ich bin nicht ich, como diz o outro. Boa, Ana!
- Bora lá então. Preciso de comprar um perfume.
- Espera.
- O quê?
- É melhor trocar de roupa.
- Ya. Fizemos um bocado de figuras no aeroporto. - Concordo. Ainda bem que trouxemos o guarda-roupa inteiro. Parece que isto vai ser difícil!...

III - Bolas de Berlim

Depois de muito cuidado para não adormecer de boca aberta ou a babar-me inesteticamente, acabo por cair num sono pouco profundo. Não sonho porque continuo meia acordada, com a conversa esganiçada das pitas a dar-me cabo da paciência mesmo por cima do "Highway to Hell" dos AC/DC a explodir no meu ouvido direito (o headphone esquerdo está estragado, estraga-se sempre, é a maldição dos headphones.). E o estômago a dar horas, lembrando-me constantemente do meu sacrifício alimentar (leia-se, dieta).
Aqueles solavancos horrorosos e uma dormência na barriga despertam-me de vez. Aterrámos. Willkomen! Doem-me os braços e tenho as pernas em formigueiro devido ao extremo luxo dos assentos.
- Chegámos! - Berra a Ana ao meu ouvido, a achar que ainda estou a dormir.
- Parva, queres pôr-me surda! - Rosno. Ouve-se qualquer cousa em alemão, provavelmente a dizer que chegámos e essas merdas todas, só apanho um número, "3", que deve ser o ponto das malas. Raio de língua, nem eles devem perceber e isto não passará de parte e uma grande conspiração.
Arrastamo-nos para fora do avião, de óculos escuros postos e a beber água, com ar forçado de superstar. Com a diferença de que não estamos propriamente a abandonar o jacto mas o voo mais barato que encontrámos no edreams.com.
Aqui, ninguém nos conhece. Temos de causar boa impressão. Combinamos com o olhar o sinal para começar a andar à topmodel. E assim nos bamboleamos até ao sitiozinho onde as malas, um dia, aparecerão. Hoje, de preferência.
So, the package. Durante a eternidade que elas demoram a aparecer, observamos através das lentes enormes (estilo Victoria Beckham) a fauna do aeoporto. Alemanha. Isto é mesmo Alemanha. Mas não vejo nenhum exército de armários loiros de olhos azuis e com cara de Exterminador Implacável. Apenas pessoas normais. Bastante semelhantes aos portugueses. Mas mais brancos. E com um ar muito mais inteligente e superior. Up-grades de pessoas. Fora os turistas, claro. E as raparigas? Temos de verificar imediatamenet a concorrência!
Quase toda a gente que passa, olha para nós de alto a baixo, logo, das duas, uma: ou estamos muito giras, ou estamos muito palhaças. Inclino-me para a segunda hipótese porque aqui anda tudo de casacos e sapatos Timberland enquanto nós somos uns aliens de chinelos que caíram no meio deles. As malas, é que nem vê-las!
- Estou a desesperar! Tenho fome! - Queixo-me em vz alta. Ninguém de liga nenhuma. A Ana está a limar as unhas. - Olha, vou ali matar-me e já volto! - Aviso-a. Ela diz que sim e continua empenhada na manicure. Também a adoro. Mas tenho de comer. Qualquer coisa boa, fresca e com poucas calorias. Como é que se dirá isso em alemão? Desando, nos meus chinelos.
Sinto-me uma polegarzinha em comparação com algumas vigas que se cruzam no meu caminho, os verdadeiros alemães. Olham-me demasiado. Os mais novos piscam-me o olho ou sorriem. Então? Esta não é a terra das beldades loiríssimas tipo Barbie? Precisam de fazer olhinhos às estrangeiras bronzeadas que passam? Hmmm... talvez. São giros. Preocupo-me em manter o meu ar misterioso e pseudo-sexy.
Não percebo ponta de corno do que está escrito nas placas. Onde é que se come? Food? Hallo? Some help? Por favor... Estou fraca. Se fosse uma supermodelo superanorética saberia como aguentar mas já sinto a palidez a cobrir as células da minha cara e as costelas salientes por baixo do top.
De repente, assim como nos filmes cómicos (ou, neste caso, trágicos), passa por mim um mastro de um metro e noventa (pelo menos!!), umas pernas que fazem a Giselle Bündchen parecer uma camponesa roliça e uma cara igualzinha à da Naomi Watts e sem tanta maquilhagem. Loira, loira como só estas putas o podem ser e com aqueles sorrisos que aparecem nos anúncios do Colgate e que nós pensamos "que treta, isto é placa". Não é placa. E talvez as fotografias nas revistas não sejam assim TÃO retocadas. Esta gaja é real. Foda-se. Foda-se. Foda-se. E eu mirro nos meus chinelos rasos e jeans rotos, com tanta vontade de desaparecer daqui como de matá-la e esconder o cadáver na casa de banho dos homens. Esqueço-me que tenho fome. Sou uma bolinha. Uma bola de berlim.

domingo, 21 de outubro de 2007

II - Não somos as únicas. que "lol"

Como já sabia que não iam dar nada legível no avião, decidi comprar imensas revistas, como pessoa sem vida que sou e que adora ler a vida das celebridades. A imaginar que são sobre mim. “Novo filme de Joana”, “Joana e o seu novo namorado”, “Joana arrasa com o seu novo penteado”. Ai, vida medíocre. Acho que no fundo toda a gente faz um bocadinho isto. Toda a gente que ainda tem idade para sonhar, claro. Não imagino os meus pais a fazê-lo. Eu, pelo menos, adoro ensaiar o discurso depois de recebe o Óscar quando estou no duche.
Não é que seja uma fútil! Também trouxe livros: Shakespeare, que devoro completamente e já li para aí umas duzentas vezes e um da Agatha Christie que encontrei por acaso e ainda não tinha lido. Tudo porque, desta vez, vim bem prevenida. Acabo sempre a olhar para o tecto nos aviões porque só levo uma revista e um livro chato e depois de ouvir todas as músicas do mp3, três vezes cada uma, roer as unhas, morder todas as pontas do cabelo e dormir até perder o sono, já não sei o que faça. E isto em voos curtos. Portanto, uma vez que não posso roer as unhas de gel que fui fazer ontem nem estragar o meu magnífico cabelo, trouxe a papelaria em peso.
Estava então a acabar de ler um artigo interessantíssimo sobre a plástica ao nariz da Cameron Diaz para prosseguir com a minha passagem favorita do “Hamlet”, quando umas vozes atrás de nós captaram a minha atenção de tão histéricas que eram.
- Vai ser liiiindo! Mal posso esperar estar na primeira fila! Achas que ele olha para mim??
- Não sei, temos que pintar bué os olhos e saltar e cantar imenso! Assim pode ser que eles nos vejam!! Eu quero mesmo tirar uma foto com eles! – Uma “foto”? Mas que é isto? A Ana olha para mim e partimo-nos as duas a rir. Já vimos o filme todo. Espreitamos para trás. Momentaneamente, sinto-me linda. Uma das miúdas tem uma testa a começar na nuca e uns óculos que mais parece que alguém muito cruel lhe enfiou duas garrafas pelos olhos adentro. A outra tem o cabelo cortado de maneira estranha, do género tigela mas com a franja nos olhos e uns fios a cair pelos ombros. E os dentes. Um exemplar que me deixa na dúvida se descendemos dos macacos ou dos tigres dentes-de-sabre. Devem ter pouco mais de 14 anos. Um atentado ao glamour.
- Temos concorrência… - Sussurra-me a Ana e solto um riso tão parvo que as miúdas se calam. Se calhar, perceberam. Coitadas. Já estou a ver a Ana a assustá-las com milhões de perguntas sobre a banda. Levanto-me para ir à casa de banho e elas olham para mim e baixam a cara. Meu Deus, não sou assim tão feia! Não, parece que estão com medo de mim.
Na casa de banho, estudo as minhas feições atentamente. Dou volume ao cabelo, afino o nariz e aliso as sobrancelhas. Não temos nada a ver com aquelas pitas. Então, que raio estamos a fazer aqui? Não sei, mas parece que isto vai ser divertido. Faço um beicinho sexy ao espelho e saio de nariz empinado, como se fosse a melhor do mundo. A Ana está inclinada a falar com as miúdas. E elas estão aterrorizadas. Acho que voltar ao “Hamlet”.

I - Duas loucas (leia-se duas estrelas desconhecidas) no Aeroporto de Lisboa

08:30 da manhã. Aeroporto de Lisboa. Estou completamente a morrer de sono, as minhas pálpebras pesam meia tonelada cada uma e já me doem os maxilares de evitar bocejar.
Decidimo-nos por um estilo desleixado-chic, eu de calças de ganga rasgadas, havaianas pretas e top cinzento com decote em bico e a Ana veio de corsários de ganga, chinelos de salto e um top amarelo. Ah, também trouxemos garrafas de água e óculos escuros (com a dupla finalidade de parecermos umas famosas que querem passar despercebidas e esconder os olhos inchados de três horas mal dormidas). Está tudo a correr como planeado. Para que saibam, derreti 500 euros numa viagem em classe económica até Berlim, sem escala, um bilhete para um concerto e estadia numa pensão rasca. Para não falar na roupa que comprei de propósito, sapatos, maquilhagem e afins. Não, não vamos ter um encontro com os príncipes de Inglaterra. Vamos apenas, quais adolescentes fascinadas, ver um concerto da banda com os putos mais brasas que andam aí. Na nossa opinião, claro.
Vale a pena mencionar que, para os nossos namorados, não estamos aqui. Nem para os nossos pais. Nem para a maioria dos nossos amigos. Há um complicado esquema de mentiras pelo meio. Há que admitir que é um pouco embaraçoso para duas raparigas de dezoito anos e meio (e meio!) atravessarem a Europa para ir ver uma banda de “putos de cabelo estranho e sérios problemas de hermafroditismo” como diz toda a gente que conhecemos (ou diriam, se fossem inteligentes ao ponto de usarem estas palavras). Portanto, estamos incógnitas.
Ando com o Luís há três meses. Eu nunca tenho namorados, não tenho paciência nem tempo nem sanidade mental para estar sempre perfeita se ele me vir. Mas acabou por ser inevitável. Ele é muito giro, todas as minhas amigas acham, e motivo pelo qual não faço a mínima ideia porque é que gosta de mim. Ele diz que sou linda e que tenho imensa piada. Deixa-o lá, então. Somos felizes. O Luís é produtor de cinema e conhecemo-nos no ramo, agora que estou na minha lenta ascensão a actriz. Ele é muito atencioso comigo, passa a vida a levar-me a jantar aos sítios mais fixes de Lisboa e às festas com aquela gente toda do star-system português (se é que se pode chamar isso…) e não tenho razão nenhuma para fazer o que estou a fazer. Menti-lhe. Disse que ia estar com os meus pais no Algarve. Sou uma puta. Mesmo. Mas já pensei nisso demasiado tempo e agora tenho de ir. Pode ser a noite da minha vida e eu já ambicionava isto muito antes de conhecer o Luís. E independentemente do que acontecer, ele nunca vai sequer sonhar.
A Ana é a minha cúmplice neste delito. Também mentiu ao namorado mas ela está-se a cagar para ele, tem imensa sorte, é daquelas miúdas que sabe que é suficientemente boa para cagar nos gajos e aproveita-se deles. E diz que se aparecer numa fotografia de duas páginas numa revista qualquer a fazer o que quer que seja com o guitarrista da banda (por quem é maluca), se está nas tintas para o que vão pensar. Já eu, não sou assim. Se o Luís me visse numa cena destas, ou os meus pais, ou… Oh meu Deus! Acho que morria. Não sei se é possível morrer-se de vergonha, eu acho que não, mas morria.
Whatever, tempo para afastar os pensamentos-headphones. São aqueles pensamentos que se embaraçam uns nos outros como os headphones que a certa altura já não sabemos por onde dar a volta. Avançamos no meio da multidão, fingindo saber para onde vamos.
- Qual é a porta? – Pergunto-lhe.
- Não faço ideia. Está no bilhete.
- Nós não temos bilhete.
- Temos a referência da internet. É a mesma coisa, vê lá.
- Está na minha carteira. Algures. – Procedo a uma complicada operação à minha mala. Espelho, base, perfume, mp3, caderno, montes de merda. Menos carteira.
- Por favor, não me digas que te esqueceste! – Guincha ela, revirando os olhos. – Vais-me obrigar a matar-te e assim toda a gente vai saber onde estávamos!
- Cala-te, está aqui! Pronto… Estão aqui os papéis. Gate 78. Berlim. É por ali.
- Sabes que há uma certa probabilidade de termos sido enganadas e não haver bilhetes nenhuns, não sabes?
- Sei. E prometi a mim mesma quando acabei o 12º que não queria ouvir falar sobre matemática até os meus filhos irem para a escola. Vamos.
Depois de meia hora na fila, sempre há bilhetes. Levantamo-los, fazemos o check-in e deixamos as malas, que mais parecem para um mês que para um fim-de-semana. E vamos tomar o pequeno-almoço, que é como quem diz, as maçãs e iogurtes que trouxemos de casa. Delicioso.
- Sabes que isto tem de ser perfeito, não sabes? – Comenta ela, segurando o iogurte em frente aos olhos como uma actriz dramática faria com uma carta do seu amado.
- Mesmo! Não quero voltar de lá com uma desilusão em cima. – Redargui, fazendo pontaria ao balde do lixo.
- Não tens medo que o Luís te apanhe?
- Foda-se… Estou toda borrada. Ele não me desculpava. A propósito, já me mandou uma mensagem, mas eu não respondi.
- Então liga-lhe. Tens dinheiro?
- Ele carregou-me o telemóvel. Amoroso. Pois, eu disse que o avisava só quando saísse de casa. Vamos supor que estou a sair agora. – Ela ri-se e eu marco o número. – Estou? Bom dia, Lucas. Era só para dizer que vou sair agora, vês, não me esqueci. Oh… até parece. Sim, vou ter imensas saudades tuas, até porque vou para muito longe. – Lanço um olhar à Ana e ela faz-me uma careta. Faço um esforço sobrehumano para não em desatar a rir também. – Vá, vou entrar agora par a garagem e vou ficar sem rede. Beijinho enorme. Também te adoro. Adeus. – Desligo. Não consigo aguentar uma conversa longa com ele quando estou a mentir 50% do tempo.
- Sou uma grande puta, não sou? – Suspiro.
- És. Mas eu sou mais. Não te preocupes. – Graceja ela. – Olha. – Chama-me, apontando o quadro dos voos. – Berlim, daqui a 25 minutos. Diz para ir para a porta de embarque.
- Bora… - Murmuro, sem grande ânimo.
- Oh , Joana, por favor! Não te ponhas com merdas! Não vais agora perder o entusiasmo por causa do Luís! Ele nunca te vai apanhar, não penses nisso! Esta é A viagem. Ele é só um gajo. Vá, caga nisso! – A Ana tem uma maneira muito simplista de ver as coisas. O que não sei se é bom, se acaba por a afastar da realidade sentimental. Bem, para ela, é óptimo. Tem sorte. E talvez tenha razão.
- Está bem. Tens razão. Vamos lá. Sem dramas.
Agora é aquela coisa de passar a ver se somos potenciais terroristas ou não. Pouso a mala naquelas estúpidas caixinhas de plástico e sigo.
- Desculpe, o cinto – Pede a mulher que está ao ecrã.
- Não tenho nenhuma bomba no cinto. – Replico. Ele não acha graça.
- Tem de tirar o cinto. – Resmunga. Faço-lhe uma careta e tiro o raio do sinto. Vou já a passar, descansada, quando ela volta a dirigir-se a mim:
- Sabe ler? – Questiona, com uma arrogância extrema na voz e uma expressão de quem se considera muito acima de mim.
- Se sei ler? – Indignei-me.
- Não sei se tem viajado nos últimos 3 anos, mas está escrito por toda a parte que não se pode transportar líquidos a bordo. – Vocifera ela, de modo a que todos possam ouvir. - Portanto, transportar um líquido de 50 mL parece-me uma grande falha de atenção ou… – O meu perfume! Oh, não! Está toda a gente a rir-se de mim. Alguns fazem comentários, reconhecendo-me. E esta mulher está a chamar-me estúpida! Que raiva! Sirigaita gorda!
- Eu percebo que tenha cometido um erro mas não tem o direito de se dirigir a mim nesse tom, sua parola! Você é apenas uma insignificante empregada de aeroporto e eu, querida, vou ser uma estrela. Não está a ver quem eu sou? Os seus filhos gordos e medíocres têm muito provavelmente os meus livros nas suas estantes de madeira barata! – Mas, como é óbvio, não digo isto. Limito-me a responder arrogantemente:
- Claro. Foi uma grande falha de atenção da minha parte. – Ela retira o perfume, eu pego na mala e desando dali, a arder de humilhação e sem perfume. Preciso de um cigarro. Merda! Avisto umas escadas que vão ter a uma pequena varanda e dirijo-me para lá a passos espaçados nos meus chinelos.
- Vou só fumar um cigarro – Aviso a Ana. Ela anui com a cabeça e senta-se nos bancos. Entrego-me ao momento de prazer que este rolinho de cancro e doenças várias me oferece e sinto-me relaxar novamente, como se estivesse sedada. Como fumo demasiado depressa, parece que fico ligeiramente “com a moca” o que pelo menos não me vai deixar irritar por causa de mesquinhas coisas, durante um pequeno período de tempo. Pastilha na boca e sento-me ao lado da Ana.
- Que vergonha! – Comenta ela, enquanto alisa a franja. Tem a mania de mexer na franja. É como eu a afinar o nariz com os dedos cada vez que me vejo ao espelho (frequentemente).
- Nem me digas. Se me fazem uma coisa dessas lá na Alemanha, mando-os à merda.
- Não vão perceber.
- Pois não, por isso é que digo.
As pessoas começam a mexer-se e lá vamos nós para o avião. Não há classe executiva, não há comida, nem jornais, nem filmes, as hospedeiras são feias e enrugadas. But, who cares? Estamos a caminho de Berlim! E daqui já ninguém nos tira.