(Pi, pi, pi…)
Acabou-se a bateria. E não tenho carregador. Melhor, não tenho nada. Só a roupa da noite passada que me parece muito pouco própria para usar na rua. E o vestido está rasgado. Parece que isto foi violento…
E ele não acorda. Fico para aí uns cinco minutos a vê-lo respirar, a sentir-me tão estúpida como o estava realmente a ser. Eu não faço isto. Devia pegar nas minhas coisinhas e ir embora, deixar o meu número de telefone ou assim… Ou talvez não, estas coisas de one-night-stand não são para deixar números de telefone. É uma queca e mais nada, como uma conversa com a velhota no autocarro que se esquece no minuto a seguir. São como regras feitas.
Ou então podia ir lavar os dentes, pôr-me apresentável e deitar-me outra vez, a fingir que estou a dormir, à espera que ele acorde. O que menos me incomoda neste momento é saber que estou num quarto de hotel, no meio de algures, sem telemóvel nem dinheiro nem nada, perdida. Porque me encontrei deitada ao lado do gajo por quem ando maluca há um ano e meio e que não é propriamente a brasa do vizinho do 2º direito.
Parece que caí em mim, e foi um grande queda. Só agora é que sinto as pernas fracas, as entranhas a girar ao ritmo de uma máquina de lavar e o coração a saltar tanto que não sei como não o vejo no peito, como se fosse um cartoon. Uma estranha vergonha apodera-se de mim. Foda-se, estou quase nua e tenho aquela terrível sensação de estar a ser observada por alguém que conheço… como a minha mãe. Havia de ter a sua piada…
Porém, enquanto me espalho por estes pensamentos peregrinos, não consigo tirar os olhos dele.
Agora está a mexer-se. Ohmeudeusohmeudeusohmeudeus ele não me pode ver assim! Pareço a noiva cadáver! Mas não acorda. Apenas mudou de posição. Ainda com aquela alegria de senhora deliciada com um bebé e com um grande sorriso pateta (uma vez que estou a sorrir para mim mesma), torno a sentar-me na cama. Sinto a respiração dele condensar na minha mão. Que estranho, é tão real. Miúda, não estás a sonhar. Isto está mesmo aqui. Sem querer, faço-lhe uma festa e ele abre um olho. Ups!
- Desculpa! – Balbucio logo, afastando-me. “Desculpa” em português, para estar claro como sou inteligente e como ele vai perceber perfeitamente. Não percebe. Olha-me como um bicho atordoado e diz também qualquer coisa que para mim é chinês. Estamos com uma falha de comunicação.
- Sorry. – Repito. É o momento da coroação da Rainha das Idiotas. – I was just… Well… uh… Nothing. I’m leaving ok? Sorry anyway.
Ele continua confuso. Revira os olhos, como se estivesse a pensar e responde, num inglês forçado, interrompido e cheio de “rr” e sons esquisitos:
- No. Don’t leave. You can… stay.
- Look, we don’t have to talk about this, it’s ok. I just need to make a call…
- But you want to go away?
- Well… No, but… - Merda, e agora digo o quê? Não me sai nada. Deve estar a gozar com a minha cara! Só consigo olhar para ele e ficar de boca aberta como um peixinho de aquário. Mas com um pouco mais de QI, já que eles passam a vida às voltas, que vida estúpida, mas ai o que é que estou para aqui a pensar? Concentra-te. Respira. Ele ainda está especado.
- So, stay. It’s morning. We can stay here. – “Herrre”, é mais assim que ele diz. Ficarmos aqui? Com pequeno-almoço na cama, tipo casal de namorados? Uau! Uau, mas assustador. Devo estar com uma cara linda de parvalhona. Ah, e volto a salientar: estou de roupa interior. Ele não parece estar incomodado com isso. Então, força, ficamos aqui. Tremo que nem uma gelatina ao enfiar-me outra vez dentro da cama. Parece que me vou desmoronar a qualquer momento. Inclino a cabeça estrategicamente para que o cabelo me cubra a cara e olho para o outro lado, contornando cada objecto que vejo. É suposto sorrir? Falar? Dizer o quê? “Então, gostaste?”, “Olá, sou a Joana, muito prazer.”, há alguma frase que faça sentido nestas alturas? Só me apetece dizer palavrões.
- So, what are you thinking about? – Pergunta-me. Em que estou a pensar? Que raio de pergunta!
- Uh… Nothing particulary. – Esta era mesmo para levar um “lol” a seguir. Oh, God. Estou a tremer. E não é de frio.
- You are cold? – Que vozinha amorosa! Respondo com um gemido. Sinistro! Agora vai-me achar somente capaz de coaxar. E é aí que o coração me cai aos pés. Aos pés não, porque estou sentada. Ao estômago, talvez. Ele põe o braço à minha volta e encosta-me a ele. Calma! Isto não é suposto. Oh meu Deus… até o meu cérebro está líquido! Será que se meteu demasiado na coca ontem à noite? Não, essa fui eu. E estou consciente. Semi. Um terço consciente. Acho que vou rebentar. Aninho-me no ombro dele. Assim de repente não é do tipo de pessoa que mais apeteça acarinhar, tem os cotovelos bicudos e o cabelo dele faz cócegas na minha cara. Mas ainda assim, não me controlo e dou-lhe um beijinho na cara.
- Oh, I’m sorry! – Digo, instintivamente. Ele ri-se.
- Don’t say you are sorry everytime. – Frase mal construída, mas está óptimo. Está mesmo óptimo. E a seguir, salta-me à boca. Pronto, é suposto eu aguentar isto? Sem calmantes? Sem drogas? Ordeno o meu cérebro para parar de tentar pensar, porque não está a resultar. E fecho os olhos. Achava que as pessoas quando acordavam tinham mau hálito e sabiam mal. Não sabe mal. De todo. E sinto um piercing lá pelo meio. Que giro. Quando nos soltamos do abraço, sinto-me a escaldar e com cara de tomate. Ele parece achar muita graça porque me aperta uma bochecha. O que é que foi isto? Será que foi “que coisinha amorosa”? Ou “que bochecha tão gorda, deixa-me lá ver se cabe toda na minha mão”? Cérebro, já te disse para não tentares. A sério. Já foi suficientemente bom ter-me lembrado ontem de me depilar e usar uma roupa interior gira, não que estivesse à espera de uma cena destas, claro que não, mas pelo menos não tenho de passar pelo embaraço de saber que ele viu uma das minhas lingeries mais pirosas ou a linha do biquíni crescida como mato. Bem… onde é que nós íamos? É melhor dizer qualquer coisa para não parecer indiscutivelmente estúpida. Não, não. Só me ocorrem piadas parvas e frases sem sentido.
- Do you need to go somewhere? – Pára com as perguntas! Não percebes que não consigo dizer nada de jeito?
- Yes…No I mean, not right now. I came with a friend, she may be worried, you know… - Não propriamente worried, mas desejosa de saber todos os pormenores escaldantes dos quais nem eu me lembrava. Eu sabia que ela tinha ido com o outro, mas isso foi no princípio da noite. E estas coisas são bem melhores quando se está lúcido. Mas estou com uma preguiça enorme. Boa desculpa para continuar aqui. Sorrio. E desta vez, sem medo de ficar feia, sem medo que o nariz se espalhe pela cara. Porque ele continua a olhar para mim como se eu fosse capaz de fazer a Michelle Pfeiffer parecer a Maga Patalógica e, por uma única vez na vida, sinto mesmo que sou. Olho-o nos olhos, já sem vergonha e tudo vem naturalmente. Estamos mesmo a conversar. Como se fossemos velhos amigos e não companheiros de uma noite de sexo, e não o popstar e a fã que acabou por ser uma num milhão. A dizer tudo o que provavelmente já dissemos a noite passada e não nos lembramos. E a dizer muito mais. A conversar.
sexta-feira, 2 de novembro de 2007
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