quarta-feira, 31 de outubro de 2007

- Feel free. - Digo, revirando os olhos.
- Anda comigo à casa de banho... - Pede a Ana, puxando o meu vestido molemente, com a voz já completamente alterada. Encolho os ombros e agarro na mão que ela me estende. O Tod olha para ela e arregala os olhos. Ela solta um risinho, faz-lhe adeus e puxa-me através da multidão. Pelo canto do olho, vejo um grupo de miúdas a aproximar-se deles e só me apetece voltar para trás mas ela insiste. A música vibra nas colunas e só vejo pessoas giras a dançar. Mas estou-me a sentir tão boss que não me causam qualquer efeito. Sou uma delas, neste momento. Somos. Passo pelo George e pelo outro que estão ao balcão a falar com aquelas modelos que servem bebidas. Quando nos vêm, acenam. Dirijo-me para lá e na minha incosciência ou involuntariedade, dou um beijo na boca ao George e volto para o pé da Ana. Ela nem viu, pelo que não comenta. Nem sei o que me deu, mas também não interessa.
Entramos na casa de banho e ela senta-se no lavatório.
- Joana, não tens noção!!!
- Eu tenho perfeita noção...
- Estou no céu. Acreditas nisto?
- Claro que acredito. Foi a cena mais hot que já vi ao vivo e a cores! Parabéns!
- Tu e o Will, fizeram alguma coisa?
- Ah... Não. Só conversámos.
- Sobre quê?
- Coisas da vida... foi giro.
- Joana, tu não vieste aqui para falar de coisas da vida. Podes falar de coisas da vida com qualquer pessoa!
- Ya, eu sei... Mas o que é que queres? Não posso saltar-lhe para cima.
- Claro que podes! Estás à espera que seja ele a fazê-lo?
- Pois... ele disse que eu era gira.
- Então, mostra que és gira e tens personalidade. Atira-te de cabeça!
- E se ele se passar?
- Hum... pois, nesse caso, tenso George. Ele pareceu interessado em comer-te.
- Tipo "Plano B"?
- Exacto! - Deixa-se escorregar até ao chão. - Estou tão bêbeda!
- Eu também estou um bocado... acabei de dar um beijinho na boca ao George. No meio do nada.
- A sériooo? Vês, então é só fazeres o mesmo com o Will.
- Não é a mesma coisa!
- Claro que é! Olha tenho de ir mesmo à casa de banho, não bazes sem mim. Mas assim que sairmos daqui, vais fazer o que eu disse ou não és ninguém.
Murmuro que não sou ninguém mas ela não ouve. Quando saímos e somos envolvidas pelos milhares de décibeis a que o som deve estar a rebentar, estou mesmo decidida. Já não penso. Estou maquinizada. Como as barbies do bar de strip.
Atravessamos a multidão e vejo o Will, parado junto à pista, a segurar num copo. Sozinho. Obrigada, Deus, obrigada, Senhor. A Ana empurra-me e eu saltito nos meus saltos até ele. Sem pestanejar nem fazer pausas, atiro:
- Look I don't know if you will be mad at me but I don't care because I came from Portugal mainly to do this and now that I got the courage to do it I'm really sorry if you think that I am another stupid fan of yours. I damn like you very much. - E sem dizer mais nada, agarro-o pelos ombros e prego-lhe um beijo. Ao contrário do que eu pensava, ele não me bate nem me enxota como se eu fosse um bicho asqueroso. Continua. Mas eu páro, afasto-me e fujo dali para fora, a arder de vergonha. Se calhar, estraguei tudo. Mas fiz. Fiz!!!
Sento-me na mesa onde estivemos, just by myself. Me, myself and I. Pego numa garrafa de Absolut e dou um golo enorme para ver se me ajuda a aguentar a pressão do meu mais recente acto de (in)sanidade mental. Quando olho em redor, com a visão meia turva, o Will vem para cá. Não me mexo, quase nem respiro e observo-o a sentar-se ao meu lado. Fiz merda. Agora ele vai dizer que sou uma histérica.
- This has... never happened to me. - Quase soletra. É uma frase complicada, realmente. Mas deve estar a mentir. Até parece que nunca nenhuma fã lhe saltou à boca. Que grande achado!
- Oh... really?
- Ja...
- Well... you mind if I do it again?
- I think I don't mind...
- Ok... - Que parvoíce. Abandono o meu estado de paralisia, agarro-lhe na cara. Já está. Foi só isto? Que fácil. Sinto o piercing dele lá pelo meio. Inacreditável. Fui mesmo capaz. Será que foi assim que a Ana fez? Quando paramos, sorrio abertamente. Meu Deussssssssss!
A Ana e o Tod surgem do nada. Não chegaram a ver, acho eu. Depois chegam os outros dois. O George senta-se e abre um saquinho com um pó branco que espalha sobre uma chave e passa ao Tod.
- You want some? - Pergunta a mim e à Ana. Nunca experimentei. Mas tenho vergonha de o admitir.
- Sure.
- You're not going to tell this around, right? I mean... fanclubs and so on. We don't want to be a bad example.
- Oh, come on! We're not thirteen! It's your life, right? Your business!- Respondo indignada. Depois do Tod, aceito a chave.
- I went green the last time I tried. - Confessa o Will. Os outros partem-se a rir.
- Really? What a pussy! - Comento, enquanto snifo aquela porcaria. Quase espirro mas seguro. Depois dá-me uma comichão no nariz e sinto uma estranha sensação de dormência pelo corpo todo. Fixe. A Ana também não espirra nem nada mas pela cara dela consigo ver que está a sentir o mesmo que eu. A chave dá mais uma volta e desaparece da mesma forma que apareceu, bem como o saquinho vazio.
Bolas!...

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