Will Kovich. O único, the one, o amor da minha vida. Caraças. Não sou do género de me apaixonar. Nem paixoezinhas, nem paixonetas. Acho que só me apaixonei mesmo a sério uma vez e outra mais ou menos e fiquei tão na merda por ter levado com os pés que jurei para nunca mais. Durante três anos levei uma vida de mulher de aço celibatária, indiferente às minhas amigas que mudavam de namorado com frequência e encontravam os amores da sua vida (ou então não), sempre dentro de outra dimensão onde os gajos eram todos farinha do mesmo saco e só nos queriam comer ou às nossas amigas. Ainda continuo a achar que é assim.
Muito menos fui do género de amores platónicos por gente famosa. Nunca tive posters nas paredes, nunca comprei cd's dos backstreet boys nem revistas para adolescentes. Achava toda essa treta puramente comercial e com o objecivo de mover a pito-adolescência em grandes massas nas quais me abstive de me integrar. Era diferente, achava eu. Tive de chegar aos 17 anos para cair na teia onde só caem bichinhos com idades compreendidas entre os 10 e os 16 anos (o mais tardar). Um ano devia fazer toda a diferença. Não fez.
Ia o Verão a meio e estava eu no ginásio a abater tardiamente as gordurinhas instaladas um pouco por todo o lado que me começaram a assombrar após a anorexia (quando voltamos a comer como comíamos, engordamos drasticamente). E ia deitando um olhinho à MTV que passa em ecrans plasma em frente às máquinas de cardiofitness, gosto imenso de ver vídeos de música (e imaginar que sou eu ali a dar um show ao estilo Rhianna com um corpo de fazer inveja e a mover massivamente as pessoas a adorarem-me). Passou uma música nova, de uma banda que nunca tinha visto. "A" vocalista pareceu-me só mais uma menina gótica bonita e que, uma vez confrontada com a minha cara suada no espelho, me deprimiu bastante. Daí a dias, vim a descobrir por ali que "a gótica", "aquilo", era um rapaz. Um rapaz! Devo ter rido pouco. O mundo anda mesmo ao contrário, como diz a minha avó ou outra avó qualquer. Mas, sem explicação lógica, o facto é que o meu coração batia sempre que via aquele videoclip e no espaço de um mês já sabia tudo o que tinha encontrado na internet sobre os ditos rapazinhos alemães, já tinha visto todos os videos e decorado grande parte das músicas e inclusivé encontrado uma amiga minha (a Ana) também completamente maluca pelo irmão gémeo do meu novo amor, o guitarrista da banda. E foi assim. Perco a contagem das horas que levei com os olhos presos no youtube ou nas ditas revistas que me recusava a comprar quando tinha 13 anos. Fui gozada por todos os meus amigos e pelos meus pais. Mas isto durante um ano e meio. E um ano e meio vivi com ele na cabeça, fiz a minha vida, editei os meus livros, começei a minha carreira como actriz e modelo principiante, arranjei um namorado, tudo com ele na cabeça. E aquilo não me abandonou. Até agora que estou em Berlim, sentada na retrete do quarto a cagar e ainda com o zumbido da música e dos gritos nos ouvidos e a sensação dele a tocar-me colada na minha pele. Estou a ofegar e as minhas mãos acusam sintomas da doença de Parkinson.
A Ana gritou durante meia hora "Foste fantástica! Foi lindo! Quase chorei! Parecias mesmo uma popstar! Quem me dera! Devias ter visto a cara dele!", estrafegou-me com abraços e parecia quase mais feliz do que eu.
E agora aqui a raspar com os saltos por entre as lajes da casa de banho enquanto alivio a minha barriga dorida de tanta emoção, sinto-me o centro do mundo. Acho que fiz muitas boas acções ultimamente e que o sr.karma está contente comigo. Ou então que tenho a mão de Deus a pairar na minha cabeça, ou então que nasci com o rabo virado para a lua. Qualquer coisa que me fez ter tanta sorte hoje!
- ROYAL BURG! ROYAL BURG! - A Ana inrrompe por ali a dentro, repetindo-se como se não tivesse mais nada no cérebro. E naquele momento, duvido que tenha.
- Ha...? - Faço uma cara de débil mental.
- Vamos para lá já já já, despacha lá essa merda! Vai ser hoje, vamos conseguir! Ele vai lembrar-se de ti!
Olho para ela com ternura (o que é difícil quando se está sentada numa retrete e a fazer o que tem de ser feito).
- E tu vais finalmente comer o Tod à grande e à francesa, como já sonhas há tanto tempo. - Ligo o telemóvel para ver as horas. Grande erro. Parece quase de propósito, cerca de vinte segundos depois começa a tocar. Número privado?
- Estou? - Antendo.
- Joana...
- Luís! - Quase engulo a língua. Foda-se, meu! A Ana paralisa ao meu lado.
- Joana, mandei-te centenas de mensagens ontem à noite e hoje, liguei-te imensas vezes e nada. O que é que andas a fazer? - O tom é sério. A puxar para o zangado.
- Nada. Fiquei sem bateria.
- Desde ontem até hoje?
- Sim.
- Desculpa, mas estás a esconder-me alguma coisa. Parece que estás. O que é que há de tão interessante para fazer aí que te esqueças de carregar o telemóvel?
- Luís, eu não tenho de estar sempre disponível. Também nunca sou chata contigo. Não temos de passar a vida a falar.
- Eu sei que não, mas às vezes apetece-me se é que posso.
- Podes. Mas não tens o direito de desconfiar de mim! - Ai não, não.
- Deste razões para isso.
- Desculpa? Só podes estar a gozar! - Estamos a discutir. Mesmo. E eu estou tão excitada com a ideia de estar uma noite inteira enrolada com o Will no Royal Burg que só quero despachá-lo. Ainda que fique a detestar-me. Não o quero agora. Não quero que ele seja meu namorado, agora. - Olha, Luís, não tenho paciência para as tuas insinuações. Quando quiseres dizer alguma coisa de jeito liga-me. Ou não ligues de todo. - Desligo. Fui estúpida e irracional e tudo o que disse não veio a propósito nenhum. Só queria mesmo dar-lhe um motivo forte para não insistir. Vou-me arrepender tanto. Contudo e estranhamente, não estou incomodada. Só quero que ele fique longe enquanto aproveito aquilo que já desejava muito antes de o conhecer. E ele não veio alterar nada. Quero esquecer que ele existe, esta noite. Como se tivéssemos realmente acabado.
- Ana, vamos por-nos lindas. - É tudo o que digo e ela encolhe os ombros e segue-me.
O meu vestido da Calvin Klein de 200 euros. É simplesmente perfeito. É cai-cai e curtíssimo, todo por igual, num tecido sintético, brilhante, aderente e preto que realça todas as minhas curvas (até as que não quero realçar) e me faz parecer uma pornstar dos anos 50. Eu estou mais virada para o parecer um chouriço preto mas a Ana insiste que estou uma bomba. Os sapatos são a minha pièce de resistance que não me canso de admirar: as sandálias de tiras pretas Chanel, oferecidas pela minha tia quando fiz dezoito anos porque segundo ela "é criminoso chegar à idade adulta sem uma única peça de estilista no armário" e cujos saltos me fizeram seriamente pensar que mais depressa me equilibrava numa corda de circo. E pinto os lábios de encarnado que é uma coisa que nunca fiz na vida e que acho que só as mulheres que se sentem sexy o fazem. E eu estou a sentir-me sexy. Dou volume aos meus caracóis dourados e abuso infinitamente no rímel e eye-liner. A Ana leva uma saia e um top pretos, ultra-curtos e uns sapatos de salto que roubou à mãe.
Um estoiro. Estamos um estoiro. Sem palavras. Próxima paragem (e de coração a saltar para fora da boca), Royal Burg. São 11 e meia da noite.
terça-feira, 30 de outubro de 2007
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