terça-feira, 30 de outubro de 2007

XII - Royal Burg. Alles wird gesagt!!

Está uma fila gigantesca, as luzes projectam-se para fora e parece fantástico. A clientela não tem nada a ver com a noite passada no Prenzlauer. Os homens cheiram a perfumes caros e têm todos um aspecto sólido e musculado, segurando com um braço forte as raparigas altas, esguias e mais brilhantes que o meu vestido que se equilibram nos seus saltos. Há ainda grupos de rapazes e raparigas muito novos, todos giríssimos e vestidos de branco, cheira-me que são empregados daquelas agências de modelos adolescentes que as organizadoras de festas contratam para servir bebidas. Finalmente, as verdadeiros modelos: corpos magros que exibem amplas zonas de coxa e decote entre os vestidos esvoaçantes, batem as pestanas e riem com uma falsa alegria cravejada de diamantes. É praticamente impossível entrar e sentimos o entusiasmo morrer.
NÃO! Eu não vim aqui para nada! Este é o momento decisivo e se já me fiz passar por segurança no concerto não é agora que me vou envergonhar de passar em frente a toda esta gente fabulosa e entrar por ali a dentro como se fosse a rainha do funaná! Tenho dito! Avanço decidida, acendendo um cigarro. Normalmente seria a Ana a tomar iniciativa mas o meu sangue ferve tanto que perco todo o medo (e toda a noção da realidade).
- Good night. - Cumprimento o porteiro com uma voz grave e sensual, enquanto lhe lanço o mais brilhante dos sorrisos. Espero que ele não vire a cara como se eu fosse um cão raivoso feio e pronto a morder.
- Good night. - Responde ele, sem pronúncia nenhuma. Sinto-me intimidada. - Names, please?
- Pamela and Delilah. - Minto, com fluência. - They said there was kind of a problem with our names on the list. We came with the model's agency...
- Shiznik models?
- Yes, right. - Não sei de que raio estará ele a falar mas mantenho a calma.
- Well... I'm sorry, but you're not on the list. - O sorriso dele torna-se uma expressão severa e dura, como se descobrisse a nossa tramóia e nos quisesse tirar dali.
- Excuse me? - Interfere a Ana. - We are not on the list?
- That's right, ladies, I'm sorry. You have to call the party supervisor or who else gave your names.
- That's not possible! - Escandalizo-me, teatralmente.
- It must be a mistake! - Prossegue a Ana.
- No mistake. Now, please, call someone and let those people come please, step aside.
- You're not getting it, for sure. We didn't came here to wait as we were any girls! Let us in, please, and I am sure there will be no problem with the agency.
- You're the one who doesn't get. I can't. I have orders. So, handle on that and free the way.
- Pamela and Delilah, check again. - Pede a Ana. Oh-oh. Não está a resultar.
- You could be England Queen herself. I don't care. - Ai, ai, ai. Foda-se, e agora?
A conversa envolvente sobe de tom quando chega uma limosine preta. Inclino-me para trás, semicerrando os olhos. MY GOD. A porta abre-se e eles saem. Sorrindo, como sempre, descontraídos, cumprimentando as pessoas e... encaminhando-se para cá! O porteiro ignora-nos completamente e abre-lhes o mais caloroso sorriso, recebendo-os em alemão e com a máxima cortesia. Fico de queixo caído e a Ana aperta-me o braço. Eles passam a cerca de um metro de nós.
O baixista, George, olha para nós. É giro. Tem o cabelo liso e castanho e afasta-o dos olhos com um gesto pouco másculo.
- Hi! - Diz, reconhecendo-me. Toca no braço do Will, puxa-o para ele também me ver. Caralho. - You came to the stage.
- Yeah, I did. - Respondo, acanhada. O Will olha para mim e sorri.
- Hi. - Cumprimenta e estende-me a mão. Dou-lhe um aperto de mão desajeitado. - You are my great singer. What's your name?
- Joana. - Foi uma sorte lembrar-me.
- And I am Ana. - Apressa-se a Ana, apertando-lhe a mão também. Estamos nervosíssimas. O outro, Tod, o guitarrista aproxima-se para ver onde é a festa. É de longe a única pessoa que se atreve a aparecer aqui de baggy trousers gigantescas, ténis de skater e uma t-shirt onde cabia uma equipa inteira de futebol americano. A Ana parece que vai desmaiar mesmo ao meu lado. Sei que está a controlar-se para não desatar aos berros.
- Hello, girls! - Sauda o Tod, com ar de engatatão. A sua pronúncia é ligeiramente melhor que a do Will. E tem a voz mais grossa. Nem parecem gémeos. - I didn't know this place had such beautiful ladies. - Que típico. Mas tem um grande charme. Ela não perde tempo em apresentar-se e dar-lhe um beijinho na cara, à bela moda latina. Eu fico-me por manter um ar descontraído e sexy, sem exagerar. O segurança diz-lhes qualquer coisa em alemão, e eles começam a entrar, fazendo-nos sinal para seguir. Não somos de modo algum impedidas e cambaleamos, aturdidas pelo diálogo que se acabou de desenrolar.
O Royal Burg é giríssimo. Tem aquelas luzes azuis espectaculares, a música chillout a embalar os poucos corpos que se movimentam na pista, o fumo lançado sobre os dois palcos e a tal equipa de jovens modelos a fazer o serviço de catering.
É-lhes indicada uma mesa a um canto onde já estão preparadas várias garrafas e quatro copos. A Ana insiste para nos sentarmos com eles mas eu retruco que fica mesmo mal metermo-nos ali no meio sem sermos convidadas e que o melhor é irmos ao balcão, pedir qualquer coisa e depois caminharmos com um ar de mulheres-fatais na direcção deles, à espera de um sinal para nos sentarmos. Equilibrando-nos nos nossos vertiginosos saltos, dirigimo-nos para o bar, fechando os punhos, roendo o nervoso miudinho.
- Meu Deus! Ele é tão giro! Viste? - Quase grita ela, com as duas mãos a cobrir as bochechas coradíssimas.
- Se vi!
- Eles foram com a nossa cara! Acharam-nos muita loucas, de certeza! Olha discretamente para ver se eles estão a olhar para nós.
Quando me vou a virar, quase que esbarro com o George. Ele ampara-me a queda imaginaria, colocando a mão na minha cintura.
- Can I get you a drink? - Pergunta, sempre a sorrir.
- If you can? Sure. - Não me ocorre nada mais inteligente a dizer.
- Why don't you come to our table? - Finalmente! A Ana exibe um sorriso triufante.
- Thanks. - Agradecemos, quase em uníssono. Ponho a palma da mão aberta atrás das costas tipo "give me five" e ela bate com a dela.
- Somos as melhores! - Murmura, ao meu ouvido. Se somos! Não estou a acreditar! Porém, depois de tudo o que já aconteceu, acho que começo a encarar isto com uma certa naturalidade. Estou sóbria, disso tenho a certeza.
- Hi again. - Diz o Tod que está sentado de pernas abertas como se fosse algum sultão à espera do seu harém. Tenho a certeza que a Ana não em hesitaria em ser parte dele. Até o baterista, o que achamos menos piada de todos, que parece sempre muito enfastiado, nos sorri e diz "hello". Fixe! A Ana naturalmente desliza sem pudores nem meios termos e senta-se mesmo ao lado do Tod. E eu sou mais ou menos guiada pelo George para me sentar com ele mas caramba, amor, não e bem a ti que eu quero. Se bem que não és nada que se deite fora, não mesmo... Joana, mantém a tua faceta ninfomaníaca no seu canto oculto. Isto é informação a mais para o meu cérebro, é a verdade.
Fazemos conversa. Dizemos que somos portuguesas, falamos todos sobre o concerto e sobre coisas triviais da carreira deles e da nossa vida em Portugal. Que estranho! Está mesmo a acontecer. E já nem estou muito nervosa. Isto é giro. Fumamos todos menos o baterista que diz que é um rapaz saudável. Digo que também adoro desporto e que o meu mal é mesmo o tabaco e depois começamos a atrofiar com coisas sobre desporto e isso tudo.
Quero mesmo meter conversa com o Will. Mas só com ele.
- I love your hair, you know. How can you do that? - Nem acredito que perguntei isto. Mas é na boa. Ele ri-se.
- It's difficult. Everybody asks me that question.
- Oh, and how could I be original in asking you something?
- Well... People ask us strange things...
- Ja! - Intervem o Tod. - Thay ask us about our girlfriends and about sex all the time! - A Ana solta um risinho e diz-lhe qualquer coisa que eu não percebo.
- Gosh, we wouldn't ask you that!
Já acabámos três garrafas, só os seis (cinco, o outro não bebe) e entre conversas.
- And groupies. - Continua o Tod, bebendo mais um pouco e passando a garrafa à Ana que já está practicamente ao colo dele. Que sorte. Estou mais esborrachada contra o George do que outra coisa qualquer. - You would be groupies?
- Oh, no! - Nego, imediatamente. - I mean, I believe you like that but...
- I don't like that. - Interrompe o Will. Oh, meu anjo, eu sei que não gostas! Sorrio-lhe e encho-lhe o copo. - They are stupid. We shouldn't have sex with someone we don't know.
O Tod diz qualquer coisa em alemão para gozar com ele, penso eu, e depois começam todos a falar em alemão e nós a apanhar do ar.
- Oh, sorry. - Desculpa-se o George, passando as mãos pelos meus ombros. Estás a esticar-te, darling. Não era bem isto que eu estava a espera. - You don't speak any German?
- Just stupid things. - Respondo. A Ana diz algumas palavras com ordem dispersa e sem sentido umas com as outras para ilustrar e o Tod ri-se como se fosse hilariante. - And rude things.
O Will tira um cigarro e vejo uma óptima oportunidade para saltar do colo do George e acendê-lo. Ele agradece, sorri e acende o meu. Agradeço, pondo-lhe a mão na perna. Se calhar estou a ser um bocado atrevida demais mas ele não se queixa, portanto...

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