segunda-feira, 22 de outubro de 2007

IV - Se calhar não

Ainda estou a recuperar do choque. Viemos pôr as malas ao "hotel" (se é que é legítimo chamar hotel a um edifício com sérias possibilidades de desabar a qualquer momento e com meia duzia de gatos pingados com aspecto de parolos que se passeiam pelos corredores à laia de "hóspedes".). Que nojeira. Não parecia tão mau na internet. Como é fácil ser enganado! Uma mulher gorda e alemã palrou um inglês todo agressivo e indicou-nos o quarto. Zimmer. Quais atletas olímpicas de alteres, carregámos as nossas espantosamente pesadas malas pelas escadas acima (O elevador não passou de uma mera ambição) até ao nosso belo zimmer, com cheiro a detergente barato alemão e com uma vista sobre uma lindíssima parede de tijolos alemães. Apesar disso, não hesito em afundar-me na cama. Queria dormir mas já não consigo. Ainda trago colada a mim a odiosa sensação de que todos os esforços que fiz desde o verão (ginásio todos os dias, dietas escandalosas, tardes de praia, cremes anti-celuliticos - sinónimo de rios e rios de massa) foram em vão, depois de ver aquela que podia muito bem ser a irmã mais nova da Claudia Schiffer. Estou-me a sentir um lixo. Decido partilhar isso com a Ana.
- Estou-me a sentir um lixo!
- Cala-te. - Retruca ela, com um gesto de impaciência. - Uma tarde de compras resolve isso. Vamos conhecer um bocadinho a cidade.
- O que menos me apetece agora é cruzar-me com estes Big Ben's humanos e com maminhas que são um atentado à fraca aparência física de alguns. - Ela ri-se. Mas não era para ter piada.
- Joana! Hallo! Mas vieste aqui para te lamentares? Para isso não nos tínhamos dado ao trabalho de sair de Lisboa. Vá, toca a levantar! - Ela grita e puxa-me até me enfiar na casa de banho para lavar a cara de sono.
Blargh! É a interjeição mais apropriada ao que se reflecte no espelho. Neste momento, sou a menina feia. O cabelo colado à cabeça, os olhos pequenos e inchados, o nariz GIGANTESCO. Oh meu Deus! Não! Involuntariamente, dá-se uma negativização das minhas expectativas em relação a esta viagem. E exteriorizo-as:
- Ana, sabes, se calhar nem devíamos ter vindo. - Ela subitamente olha para mim como se eu acabasse de proferir a maior calamidade à face do planeta. - Estou a falar a sério! Se calhar, vai ser um fiasco, nem vamos ficar à frente no concerto, nem nunca os vamos conhecer, nem eles nunca vão sonhar que existimos. Ou o máximo que vamos conseguir é uma fotografia com eles e um autógrafo igual aos ziliões que eles já deram a todas as estúpidas e histéricas fãs. E dos quais não se lembram porque não interessa. - Estou a ser convicente, o que me deprime ainda mais. - Ou seja, isto foi tudo em vão, um vaipe parvo de adolescente não concretizado na altura certa mas que só veio confirmar o óbvio: não vale a pena. Somos como aquelas pitas do avião mas mais velhas, logo devíamos ter juízo. - Termino, ofegante, horrorizada por ter destruído o meu sonho com estas palavras. Estou a ser sensata e madura. Estou a ter a atitude que todas as minhas amigas imploravam para eu ter. Mas estou a dar cabo daquilo que me fez vir até aqui: a esperança.
E a Ana parece que me vai bater.
- És tão idiota! - É o que ela diz. Como se o que eu estive para ali a desbobinar não tivesse o mínimo sentido. - Se dizes isso outra vez, ou se pensas isso outra vez, juro que te dou um estalo. Nós não viemos aqui para nos armar em sensatas ou tudo isto nos parecia também uma grande estupidez. E se calhar é uma grande estupidez. Mas é grande, pelo menos. Olha para aqui. - Ela abre a minha mala e quase me espeta na cara com o vestido de 200 euros pelo qual perdi a cabeça há uma semana atrás. - Estás a ver este vestido? Achas que alguma vez o ias levar quando fosses sair com o Luís? Claro que não! Esta é a primeira e grande oportunidade que tens de o usar porque aqui não és a Joana, és uma pessoa nova que está aqui para viver uma aventura! Livra-te dessa ideiazinha medíocre que tudo vai correr mal. Ok?? - Está com o ar totalmente trágico e apaixonado depois da cena do clímax. Uau! Mas depois, a expressão amolece. - Foda-se. - Desato-me a rir. Ela tem toda a razão. Estou aqui para não ser eu.
- Dá-me dois segundos. - Vou buscar a escova para dar volume ao cabelo e ponho creme hidratante nas bochechas. Ich bin nicht ich, como diz o outro. Boa, Ana!
- Bora lá então. Preciso de comprar um perfume.
- Espera.
- O quê?
- É melhor trocar de roupa.
- Ya. Fizemos um bocado de figuras no aeroporto. - Concordo. Ainda bem que trouxemos o guarda-roupa inteiro. Parece que isto vai ser difícil!...

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