quinta-feira, 25 de outubro de 2007

VIII - A Kurfürstendamm (santinho!) é fixe

Esforçei-me imenso para afastar de mim a negatividade e enchi-me de coragem para desligar o telemóvel. Sei que amanhã me vou arrepender, mas tenho de desligar da minha vida esta noite. Na verdade, há muito tempo que não me divirto à noite (nem de dia). Posso não ser a celebridade em pessoa, está certo, mas desde que me tornei famosa por causa dos livros e esta coisa toda agora com o Luís (que também tem um certo nome), nunca mais pude fazer as figuras que sempre fiz sem que alguém mais colectivo ficasse a saber. E só de me lembrar de há uns meses ter aparecido de cigarro na mão numa revista (depois de ter prometido solenemente ao meu pai que deixava de fumar) e do sermão que levei depois, ainda sinto o meu estômago contorcer-se. Ou seja, tudo o que implique uma noite daquelas para estoirar a divertir-me e me desgraçar ao máximo - ou seja, aquelas noite que nunca podemos dispensar por muito tempo - começou lentamente a abandonar a minhas rotina noctívaga. E começei a ficar farta de sair ao ponto de me meter em casa e fincar o pé contra os meus amigos para não ter de passar mais uma noite preocupada em estar perfeita dos pés à cabeça e do principio ao fim, não vá algum flash menos discreto apanhar-me por aí.

Mas hoje, é diferente. Estamos em Berlim e vamos jantar algures pela Rua Kurfürstendamm, que é tipo a avenida da liberdade alemã e depois rumar ao bairro de Prenzlauer Berg, o sítio mais bombástico e com os bares e discotecas mais badalados da cidade. E li por aí que a noite em Berlim é como se não houvesse amanhã, sem limites nem pudores. Vai ser brutal!

Escolho uma combinação arrasadora para a ocasião e que se a minha avó me visse, benzia-se de certeza. Estou-me a cagar se pareço uma puta, aqui só parecemos mal se não parecermos putas.

Minissaia de cabedal, botas a condizer e um top estilo rock num tecido preto sintético brilhante, sem decote mas com as costas todas à mostra. Tive de fazer uma boa ginástica com o sutiã para não se notar mas posso admitir que o resultado é óptimo. O preto é o nosso novo máximo e a Ana está com um decote que faz o meu conjunto parecer um hábito de freira. Pintamos imenso os olhos e esticamos o cabelo uma à outra.

- Foda-se, que gata. - Diz-me ela, lançando um olhar sedutor e depois ri-se.

- Olha que tu! - Devolvo o elogio. Levo o meu casaco novo e uma pochette preta.

Ao atravessarmos o hall do hotel, fica tudo a olhar para nós. De facto, os meus stilettos a enfiar-se nos buraquinhos da carpete criam uma claro contraste. Mas não nos sentimos mal. Isto até deve ter baratas e a única razão pela qual acho que não encontrámos nenhuma no quarto foi por eu ter gasto metade de um frasco de perfume para secar uma borbulha (eficaz, mas despendioso), levando ao empestamento de toda a divisão. E não em parece que os bicharocos gostem muito.
Os saloios alemães mostram-nos sorrisos sujos e tarados que ignoramos (ou fingimos que ignoramos). A Ana está mais preocupada em contar o dinheiro a ver se chega para 3 táxis e a alisar a franja, tudo ao mesmo tempo, num processo de destreza. E eua desprender os saltos do tapete enquanto não deixo que a saia suba demasiado. E ainda dizem que somos o sexo fraco? Queria ver um home a fazer tudo isto! Sem ligar à namorada nem ao melhor amigo, nem à mãe.
Daí a 15 minutos, estamos na Kurfürstendamm Street. Visto à noite, parece fantástico, uma espécie de SoHo alemão com montes de restauramtes com aspecto fixe, luzes e gente gira. Aposto que eles vêm aqui, penso para mim mesma. Comento com a Ana e concordamos que seria brutal encontrá-los, mas é muito pouco provável. Os popstars não devem ser de grandes farras antes do concertos e fartos de farras devem estar eles. Só devem ir a festas privadas.
Passa um autocarro com um cartaz enorme com a cara deles. Como é que se pode ser tão perfeito?, suspiro. Olho para a minha saia e penso como adorava que ele me visse assim vestida. Hmm... o meu pensamento deriva por cens obscenas mas tenho de me concentrar em atravessar a estrada.
A Ana pede a um homem que nos tire fotografias e vamos para o restaurante, a beter as pestanas carregadas de rímel e com passos de anca como se fôssemos umas deusas em cabedal.Escolhemos uma mesa bem centrada (para que todos nos vejam) e sento-me cuidadosamente para não deixar as cuecas à mostra, o que seria muito pouco sexy. Os empregados desfazem-se em atenções conosco, oferecem-nos martinis como aperitivos. Estou mesmo a ver qianto é que esta merda toda vai custar, ainda bem que poupámos no almoço.
Depois dos nossos olhos caírem sobre os estrondosos 400 euros que custa uma garrafa de vinho mais ou menos bom e não encontrarmos nada que soe parecido com sangria, abandonamos a ideia do álcool ao jantar.
- Ia pedir um vodka-cola. - murmura a Ana, abafando o riso de vergonha.
- Não te sintas mal, eu ia pedir uma cerveja. - Comento. Como é naturakm íamos parecer umas pacóvias se pedíssemos isso para a mesa num sítio destes.
Demoramos séculos a trincar e a cortar imaginariamente as nossas saladas para não dar o ar de alarves e depois de pagar (não me quero lembrar da conta, foi apenas um deslize), vamos virar umas bebidinhas para o balcão.
Uns homens gordos e há bastante corados, oferecem-nos cerveja e vodka às duas e sorrimos muito que nem umas parva por não percebermos nada do que eles dizem enquanto repetimos "Danke" umas quatrocentas e setenta e quatro vezes como umas barbies sem miolos e automatizadas. Já estou cheia de calor e com vontade de rir por tudo e por nada. Cambaleio até à casa-de-banho mas não consigo fazer chichi sem me apoiar nas paredes e retocar a maquilhagem é extrememamente difícil. Devia estar com medo de dar uma grande queda dos saltos abaixo mas nem me preocupo.
Ficamos um bocado no restaurante à conversa com uns gajos mas eles depois querem que vamos com eles não sei para onde (é o que consigo traduzir do seu péssimo inglês) e bazamos logo. A noite é única e exclusivamente nossa!
Saímos do restaurante e rodopiamos pela rua. Está uma noite espectacular! Em vez de estoirar dinheiro num táxi, decidimos apanhar uma boleia. Isto é, ficamos na beira da estrada a ver os carros que passam e cujos ocupantes não tenham ar de violadores e depois perguntamos se vão para o Prenzlauer Berg. Têm todos ar de tarados. É melhor ir num qualquer. Eu sou boa na porrada e trouxe o meu spray pimenta e os meus saltos matadores.
Entramos num Volkswagen azul onde os gajos parecem ser uns putos, devem ser mais novos que nós. Não me assustam minimamente e aceitamos a boleia. Estou redondamente enganada. Durante os dolorosos 10 minutos que demora a viagem mas mais parecem 10 séculos, um dos rapazes não para de me tocar na perna e outro está com a vabeça praticamente deitada nas maminhas da Ana. Colo-me toda à porta e ao vidro, procurando desesperadamente um sinal de que já tivéssemos chegado. Assim que começo a ver muita gente, bares e uma miscelânea de músicas house e garage em estereo, pergunto atabalhoadamente se é aqui e assim que recebo a confirmação, abrimos as portas e fugimos dali para fora. Que horror! Estou prestes a acender um cigarro para me acalmar quando vejo um tipo a enrolar um charro, mesmo à minha frente. Foda-se, penso. Há quanto tempo que não fumo. Já nem me lembro do gostinho. O Luís nunca fumou drogas e detesta que eu por vezes o faça. Vive na ignorância. Decido perguntar ao gajo se ele me vende alguma coisa, que eu sei enrolar, mas ele dá-me aquele para a mão e murmura qualquer coisa com a boca colada ao meu cabelo. Reviro os olhos enquanto guardo o rolinho na carteira para fumar mais tarde.
Let´s go party!

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