segunda-feira, 29 de outubro de 2007

X - Concerto! Tudo por um lugar ao sol

Acordamos à uma da tarde. Dormimos umas míseras sete horas (o que para mim, que sou bicho de dormir séculos, é muito pouco). Mas temos de nos apressar antes que a enchente de pitalhada invada o local (que vai ser o Estádio Olímpico, para verem bem a dimensão da coisa), aquilo é uma loucura. Pelos quinquilhões de vídeos de concertos deles que desperdiçei o meu tempo a ver quase me senti esmagada pela imensidão de cabeçitas e mão no ar, acompanhadas de uma banda sonora de gritos ultra-sónicos (daqueles que ultrapassam a barreira da dor e só os animais é que ouvem e a nós rebenta literalmente os tímpanos). Tenho medo. Tenho medo de ser pisada por um exército de fãs em histerite aguda e depois os meus pais terem de ser confrontados com as notícias "Jovem escritora morta em Berlim por exército de adolescentes no furioso despoletar da puberdade, leia-se, loucura por banda alemã de sucesso". E aí toda a gente saberia onde estou e que raio estou aqui a fazer, para além de morrer, o que é totalmente secundário.
Apesar de estar tudo planeado há meses, ainda demoramos uma hora a escolher o que vamos levar. Este é o momento decisivo e mais importante por que estamos aqui, todos os segundos que gastámos nesta cidade nos conduzem a isto. E tem de ser perfeito, não há maneira de não ser. Temos o plano. Temos tudo.
Rezo dez avés-Maria e um Pai Nosso, pelo sim pelo não, e enfio-me dentro de um vestido branco e rendado curtinho e calço as botas de couro castanhas. Acho que estou gira mas quando vejo a minha cara de sono tenho um espasmo de horror. Base chamada à recepção. Desta vez não nos maquilhamos à balda. Demoramos o tempo necessário a delinear muito bem os olhos, a escolher cuidadosamente as cores das sombras, o rímel é posto e reposto. Às 4 horas, depois de tudo estar sintonizado e os estômagos cheios (mas apertados pelos respectivos vestido e top), temos exactamente 4 horas para estarmos no Estádio e pormos em prática o plano. Chamamos um táxi. Não antes de verificar pela centésima vez se temos as nossas cuecas da sorte, fios da sorte metidos dentro dos sutiãs da sorte e todos os anjos e arcanjos do nosso lado. Here we go!

Nunca vi tanta miúda junta, nem quando ia ao garage. Juro por tudo o que é mais sagrado que fico a sentir-me insignificante. Não são lá muito giras e a maioria delas deve odiar a balança, mas são muitas. E gritam. Choram. Berram. Será que precisam de ajuda? Prefiro não me aproximar, à cautela. O plano está bem engendrado e não pode correr mal.
Passo a citá-lo: Casacos pretos até ao joelho e fechados até ao pescoço, com ar de serem excelentes mas que custaram 10 euros no chinês. Devem ser daqueles de cartão que se desfazem quando lavamos mas se tudo correr bem, nunca o vamos chegar a saber. Óculos Emprio Armani falsos, cabelo apanhado, a expressão mais séria que conseguimos e uns walkie talkies velhos à laia de intercomunicadores. Já nos cagámos a rir muitas vezes à pala deste plano idiota mas acabámos por concordar que, por muiro estúpido que fosse, era o mais provável a obter resultados proveitosos.
Sobre as cabecitas saltam cartazes a dizer o mesmo de todas as maneiras possíveis: "Tod ou Will (São os nomes respectivamente do guitarrista e vocalista da banda) és lindo e eu amo-te". E mais montes de fotografias deles. Isso é tão estúpido. Até parece que eles não sabem como é que são e que nunca se vêm ao espelho e precisam de ver fotografias deles para onde quer que se virem. Whatever. Mantemo-nos afastadas e falsamente alheias à palpitante confusão que se desenrola para ali. Algumas pitas parece que vão hipervetilar ou assim. Secretamente, também me sinto a hiperventilar de emoção mas nãoo posso demonstrá-lo. Firme, Joana. Firme.
Os gritos sobem de volume. Está a chegar uma limosine. Não acredito.
- Ana! - Berro, desmanchando a postura.
- Oh meu Deus! - Ela deixa escorregar os óculos até à ponta do nariz. Odiamo-nos e odiamos o nosso plano naquele momento por não podermos correr, talvez até partir os saltos por entre as pedras da calçada ou espetá-los no olho de alguém, mas correr por cima daquela massa de criaturinhas gritantes que se avalancha para cima da limosine e saltar-mos para cima deles. Não estou a acreditar. Toda eu tremo como gelatina. Talvez isto seja o mais perto dele que alguma vez vou estar e não consigo sequer distinguir bem as suas feições. Saiem os quatro, muito sorridentes para os flashes que disparam como se não servissem para outra coisa (e não servem). Não se detêm a dar autógrafos, acenam imenso e depois correm para dentro do Estádio, sempre escoltados por alguns gorilas. E a multidão está em delírio. Foda-se. Juro aqui a pés juntos e sobre solo alemão que nunca perdoarei a puta do meu karma se isto se ficar por aqui. Vamos mesmo por o plano em prática.
- Ana... - Começo a dizer mas ela está a respirar tão depressa como uma asmática e limito-me a agarrar-lhe a mão com força para que perceba a vontade que estou de levar isto para a frente. Somos mulheres ou somos ratos?
Passada uma hora em cruéis e desesperadas tentações de roer as unhas ou partir as bocas às miúdas para que se calem e me deixem ao menos saborear a sensação de estar viva e estar aqui, a massa começa a mexer-se. Começam a entrar, finalmente. Tempo de partida.
- Ao meu sinal... Já! - Pegamos nos falsos intercomunicadores e vamos falando em inglês frases como "Understood, sir. unit 105" e "Copy?" completamente aleatórias como se fôssemos parte da segurança. Não nos rimos por muita vontade que dê. Surpreendentemente, as miúdas vão abrindo passagem e avançamos rapidamente entre este caudal de peixes tão originais, todos de preto e com luvas sem dedos e bocas abertas e lágrima ao canto do olho esborratado de preto. Afastamo-las com um ar seguramente profissional e este processo dura até à entrada, onde estão os verdadeiros seguranças. Rapidamente, desfazemo-nos da porcaria dos casacos do chinês, mostramos os bilhetes, o segurança pisca-nos o olho e entramos. Uau! Não acredito que funcionou!!! Agarramo-nos uma à outra, festejando a vitória por poucos segundos para podermos voltara acelerar o passo, dando os encontrões que são precisos até à primeira fila. Coladas ao palco. Coladinhas ao palco! Sinto um aperto no estômago, uma sensação de premonição de que isto vai correr muito bem ou muito mal. Mas que vai ser inesquecível. Saltito nas minhas botas de camurça, sentindo-me felícissima. Posso estar a ser parva e infantil mas há muito tempo que não me sentia tão contente comigo mesma. Estou a fazer figas atrás das costas.

Não sei quanto tempo passa, tal é a ansiedade. As luzes projectam-se enquanto o último pessoal atravessa o palco em alvoroço e em poucos minutos, soam os primeiros acordes. Eles entram pela ordem que sempre os vi a entrar em todos aqueles vídeos no youtube e sei lá mais onde, primeiro o baixista, depois o guitarrista, o baterista e finalmente, ele. Traz uma t-shirt cor-de-rosa muito estúpida mas who cares? Não consigo tirar os olhos dele. E aquela chinfrineira toda que me ensurdece parece desaparecer. Exactamente como nos filmes.

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