segunda-feira, 22 de outubro de 2007

III - Bolas de Berlim

Depois de muito cuidado para não adormecer de boca aberta ou a babar-me inesteticamente, acabo por cair num sono pouco profundo. Não sonho porque continuo meia acordada, com a conversa esganiçada das pitas a dar-me cabo da paciência mesmo por cima do "Highway to Hell" dos AC/DC a explodir no meu ouvido direito (o headphone esquerdo está estragado, estraga-se sempre, é a maldição dos headphones.). E o estômago a dar horas, lembrando-me constantemente do meu sacrifício alimentar (leia-se, dieta).
Aqueles solavancos horrorosos e uma dormência na barriga despertam-me de vez. Aterrámos. Willkomen! Doem-me os braços e tenho as pernas em formigueiro devido ao extremo luxo dos assentos.
- Chegámos! - Berra a Ana ao meu ouvido, a achar que ainda estou a dormir.
- Parva, queres pôr-me surda! - Rosno. Ouve-se qualquer cousa em alemão, provavelmente a dizer que chegámos e essas merdas todas, só apanho um número, "3", que deve ser o ponto das malas. Raio de língua, nem eles devem perceber e isto não passará de parte e uma grande conspiração.
Arrastamo-nos para fora do avião, de óculos escuros postos e a beber água, com ar forçado de superstar. Com a diferença de que não estamos propriamente a abandonar o jacto mas o voo mais barato que encontrámos no edreams.com.
Aqui, ninguém nos conhece. Temos de causar boa impressão. Combinamos com o olhar o sinal para começar a andar à topmodel. E assim nos bamboleamos até ao sitiozinho onde as malas, um dia, aparecerão. Hoje, de preferência.
So, the package. Durante a eternidade que elas demoram a aparecer, observamos através das lentes enormes (estilo Victoria Beckham) a fauna do aeoporto. Alemanha. Isto é mesmo Alemanha. Mas não vejo nenhum exército de armários loiros de olhos azuis e com cara de Exterminador Implacável. Apenas pessoas normais. Bastante semelhantes aos portugueses. Mas mais brancos. E com um ar muito mais inteligente e superior. Up-grades de pessoas. Fora os turistas, claro. E as raparigas? Temos de verificar imediatamenet a concorrência!
Quase toda a gente que passa, olha para nós de alto a baixo, logo, das duas, uma: ou estamos muito giras, ou estamos muito palhaças. Inclino-me para a segunda hipótese porque aqui anda tudo de casacos e sapatos Timberland enquanto nós somos uns aliens de chinelos que caíram no meio deles. As malas, é que nem vê-las!
- Estou a desesperar! Tenho fome! - Queixo-me em vz alta. Ninguém de liga nenhuma. A Ana está a limar as unhas. - Olha, vou ali matar-me e já volto! - Aviso-a. Ela diz que sim e continua empenhada na manicure. Também a adoro. Mas tenho de comer. Qualquer coisa boa, fresca e com poucas calorias. Como é que se dirá isso em alemão? Desando, nos meus chinelos.
Sinto-me uma polegarzinha em comparação com algumas vigas que se cruzam no meu caminho, os verdadeiros alemães. Olham-me demasiado. Os mais novos piscam-me o olho ou sorriem. Então? Esta não é a terra das beldades loiríssimas tipo Barbie? Precisam de fazer olhinhos às estrangeiras bronzeadas que passam? Hmmm... talvez. São giros. Preocupo-me em manter o meu ar misterioso e pseudo-sexy.
Não percebo ponta de corno do que está escrito nas placas. Onde é que se come? Food? Hallo? Some help? Por favor... Estou fraca. Se fosse uma supermodelo superanorética saberia como aguentar mas já sinto a palidez a cobrir as células da minha cara e as costelas salientes por baixo do top.
De repente, assim como nos filmes cómicos (ou, neste caso, trágicos), passa por mim um mastro de um metro e noventa (pelo menos!!), umas pernas que fazem a Giselle Bündchen parecer uma camponesa roliça e uma cara igualzinha à da Naomi Watts e sem tanta maquilhagem. Loira, loira como só estas putas o podem ser e com aqueles sorrisos que aparecem nos anúncios do Colgate e que nós pensamos "que treta, isto é placa". Não é placa. E talvez as fotografias nas revistas não sejam assim TÃO retocadas. Esta gaja é real. Foda-se. Foda-se. Foda-se. E eu mirro nos meus chinelos rasos e jeans rotos, com tanta vontade de desaparecer daqui como de matá-la e esconder o cadáver na casa de banho dos homens. Esqueço-me que tenho fome. Sou uma bolinha. Uma bola de berlim.

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